
Ele tem um coração frágil, espetado por milhares de carrapichos secos. Sua alma está sempre de negro e sua mente fervilha com pensamentos confusos e angustiantes. Não consegue mais enxergar a magia do viver, só percebe os detalhes tristes nos lugares por onde anda. Mesmo o canto do mais raro pássaro do mundo, lhe soaria mórbido e sem esperança. Oh deus, eis o elegante homem com uma dor...
E o homem com uma dor (uma dorzinha infinita e agudamente dilacerante), tem muito mais desenvoltura ao se dopar de vinho...Mesmo bêbado, tem muito estilo. Veste-se sempre para a noite, pois sua vida é a eterna noite enfumaçada. Veste-se sempre devagar, sentindo intensamente cada peça de roupa que lhe cai ao corpo. Escolhe minuciosamente o que deve usar, sempre o melhor e mais apropriado. Veste-se como se fosse a ultima vez que usaria sua indumentária. Veste-se como se não fosse mais voltar ao seu sujo apartamento. Veste-se como se o amanhã nunca fosse chegar...Mas todos sabem...Ele veste-se para morrer de uma forma elegante, ele veste-se bem...Para a morte. E nunca há ninguém para opinar...
Um homem com uma dor é muito mais elegante porque, por onde anda, vê a vida com seus olhos singelos e sonolentos. Educado e desleixado-sexy. Sim, ele é puro, pois suas magoas e dores de consciência já queimaram todos os seus males que provocou. Ele é o santo da apatia e da amargura, purificado de todos os seus pecados por sua constante dor. Vê as luzes da cidade como pequenos vaga-lumes elétricos refletirem-se nas lentes de seus óculos. Quase sempre com as mãos nos bolsos, caminha pela multidão das ruas ou dos shoppings, olhando os rostos frios das pessoas. Procurando algo neles, algo que acalente seu confuso coração. Algo que responda as suas dúvidas sobre sua existência nesse mundo caótico e solitário. Algo que elimine de dentro dele, a sensação crônica de vazio.
Esse mesmo homem, não tem muitos amigos. Ou estão longe ou ocupados demais para suas lamentações adolescentes. Por isso, tem apenas ele mesmo como amigo e confidente. Namorada e esposa. Amigo de si mesmo. Menino e cão fiel que busca o galho lançado ao longe...Mas, e quando a dor é insuportável? Sai pelas ruas, pega qualquer ônibus, entra em qualquer loja de departamentos, sempre com seus fones de ouvidos, sua trilha sonora intima de Cool Jazz e Trip Hop. E quando a culpa senta-se bem na sua frente, olhando-o profundamente, sugando suas forças, jogando tudo o que fez de ruim para o mundo, transferindo tudo para seu intimo, ele aumenta o volume e usufrui do melhor do jazz mundano, da voz e do trumpete de Chet Baker a cerne noir de Miles Daves. Jazz music: analgésico para dores da alma.
Pela saudade aguda, amarga horrores. Por andar com a solidão ordinária, tem frieza nos lábios e olhos. Mas, e a beleza de sua vida, onde está? Ela esconde-se nos pequenos sofrimentos e desenganos. Na chuva fina que nunca passa despercebida, que lhe resfria o coração. No bondoso Sol que, apesar de toda a lama que respinga de sua alma, ainda o beija a face de forma cândida...Como uma mãe que mima o filho amado...Levemente...Ás cinco da manhã. O mundo é sua prisão...O mundo fechou suas portas para ele. Mas, como todos sabem, existem flores que brotam nos lixos e em beira de estradas poeirentas. E por isso, o homem com uma dor, no alto de sua elegância e olhar blasé, sabe que, no seu coração de esterco, um dia irá brotar a mais bela das rosas! A mais elegante das pétalas! Com a fragrância mais linda do universo...E nesse dia, o homem com uma dor ira descansar em paz e tranqüilidade, pois saberá que ao menos uma vez em toda sua maldita existência, serviu para que algo nascesse de forma pura e embelezasse essa vida feia, que insistimos em viver...