quarta-feira, maio 31, 2006



Há sonhos que surgem ao sabor intoxicante e transparente de escapamento dos ônibus coletivos. E eles tecem momentos extraordinários, de extrema beleza, mas sempre de curtíssima duração.

O fato, é que todas as vezes que ela entra no ônibus, posso sentir seu perfume. Mesmo que eu esteja nas primeiras cadeiras dormindo, com a cabeça recostada no vidro da janela. Mesmo assim posso acordar ao sentir aquele cheiro, que se mistura ao odor do diesel desse transporte popular tão decrépito.

Todos os dias ela está com o mesmo uniforme, o mesmo batom vermelho nos lábios miúdos e o mesmo salto atado ao seu tornozelo. Com um rosto serio, como se odiasse o seu trabalho e acordar todos os dias tão cedo, ela retira o dinheiro da bolsa, entrega ao cobrador e ultrapassa a catraca. Feliz objeto esse, que diariamente toca seu formoso corpo e que eu o invejo profundamente.

Tão apática e sensual tão triste e sedutora! Senta-se na mesma cadeira, saca sua bolsa preta e pega um batom, passando pelos grossos lábios. Tem uma extrema técnica para aquilo. De uma só vez, contorna de forma perfeita sua boca. Mesmo com o ônibus em tão rápido movimento, mesmo sem espelho, chacoalhando pelas ruas estreitas da cidade suja. Teria ela consciência do modo fatal que faz isso? Teria ela consciência de sua voluptuosidade mortal?

Ela tem algo de superior naqueles olhos de pupilas pretas. Olhos que nunca percebem minha presença, nem de qualquer outro homem rude que a queima com olhares indecentes. Seu olhar é morto, mas de uma sensualidade fora do comum. Seria necrofilia ter desejos tão ardentes por aqueles pares de olhos tão venenosos?

Gosto de observar suas unhas, nem grandes e nem pequenas, esmalte vermelho que reluz com o brilho da manhã. Gosto quando senta na minha frente e abre a janela, deixando o vento poluído da cidade tomar conta de seus cabelos. Às vezes eu os toco com as pontas dos dedos, de leve, para ela não perceber e me achar um louco fetichista. Talvez no fundo eu até seja. Mas quem se importaria com essa "pequena indecência"?


Mas há esse problema com o pessoal dos transportes assolando a cidade por esses dias. E não vê-la, é para mim, o único real transtorno que essa greve me provoca. Mas aqui estou eu. Torcendo pelo sindicato dos rodoviários entrarem logo num acordo... Para que o sonho volte a sua regularidade habitual.


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