sexta-feira, agosto 11, 2006








"E a chuva molhava o asfalto de leve, e eu via as luzes refletidas dos postes e carros. Para cada gota que caia gelidamente do céu, existia um motivo para se meter às mãos nos bolsos e sentir o frio que não existia. Um frio que emanava de algum lugar do corpo, de algum arrependimento, da lembrança de qualquer evento que ocorreu de forma tão insana e imprevista. Mas bom mesmo, era sentir com saudades, sim ainda com saudades, o gosto de seus pequenos lábios misturados aos meus..."


(Fragmento ainda não concluído de um conto)




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Não queira caminhar sob uma chuva fina de um inverno mentiroso que faz mais calor do que frio, ao som de Jackie Gleason. Oh não, não queira. É morte certa para mentes não tão fortes ou não masoquistas como a minha. Jackie Gleason foi um ator em dezenas de filmes hollywoodianos dos 40 e 50, mas teve a feliz audácia de se meter no meio musical e conseguiu uma carreira tão extradionaria quanto à de ator. E se muitos aqui me acham deprimente ou "pra baixo", Jackie tinha uma orquestra com o fabuloso nome de "The Jackie Gleason Show (Melacholy Serenade)", só pra tocar musica de fosso, de quem se deu mal no amor, de saudades extremas, de bebedeiras solitárias, de derrotas e coisas afins.
Consegui baixar o clássico primeiro disco, Music for Lovers Only, de 1953, e meu deus, o que isso!!! É a coisa mais lindamente trágica que já ouvi!!! Não é uma tristeza feia, desesperada, mas sim um modo de ver a vida passar, tão sublime diante de nossos olhos, que se pode conseguir até rir diante de suas próprias desgraças, mas sem, é claro, deixar de sentir o salgado gosto das lagrimas escorrerem pela boca.
Outros álbuns sugestivos: Music, Martinis and Memories (1954), Music to Remember Her (1955), Lonesome Echo (1955), Night Winds (1956), Music for the Love Hours (1957), verdadeiras perolas da dor de cotovelo e do "remorso vão".

sábado, agosto 05, 2006

O que não encontro






O mundo passa diante dos meus olhos numa tela de vidro e plasma. Lá fora, o som de chuva forte no asfalto é a trilha sonora de uma noite que começa. Dentro de mim há medo e ressentimentos. Quero os meus pensamentos aquietados. E queria aquietar as angustias dos que me são próximos. Dos que buscam a paz em meu peito. Quero alivio para uma culpa que pesa em meus ombros. Quero cessar o choro e o ranger de dentes que escuto á quilômetros daqui.

Mas tão facilmente me decepciono. Tão facilmente me amedronto com as atitudes erradas! Queria dormir tranqüilo e confiar. Queria repousar na candura de um amor maternal. Queria a sinceridade (mesmo a dolorosa) deitada ao meu lado. Queria compartilhar meu possível gosto por arte, sem medo de ser sensível. Sem me importar com rótulos feministas ou machistas. Sem me importar com os rótulos da musica. Sem me importar com o que cada palavra pode significar. Sem me importar com o que cada antigo nome pode trazer de lembranças.

Porque sou agradecido tanto às pessoas que me fizeram rir, quantos as que me fizeram chorar. Entrelacei minha vida com muitos. E tudo foi bom. Tudo foi erro. Tudo foi acerto. Tudo foi vida fluindo no momento. Fluindo de forma feia e bonita. Como a vida deve ser. Como naturalmente ela se constitui. Sem medo de ser nomeado como coisas negativas. Viver é escrever sem borracha...

Não quero pisar macio no chão, como se houvesse um medo de acordar uma pessoa que pode acordar muito mal humorada com um mínimo de ruído. Viver pode ser muito mais tranqüilo e contemplador do que se pode imaginar. E acredito que no amor, deve existir compartilhamento. De carinhos, de idéias, de memórias boas, de memórias ruins, de alegrias, de tristezas, e principalmente: de desejos realizados ou que se queiram realizar. Pois no amor, o amor verdadeiro que se confunde a amizade com o prazer sexual, nada é feio. Nada é nojento. Nada é grotesco quando há ternura. Nada é sujo quando há ternura!!!!

E ternura, é tudo o que não encontro...
 
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