segunda-feira, março 21, 2005

A simples arte de matar.




"Eu, particularmente, não tenho nada a declarar sobre a história de detetive enquanto fuga ideal. Simplesmente digo que toda e qualquer leitura por prazer é uma fuga, seja ela grego, matemática, astronomia, Benedetto Croce ou The Diary of the Forgotten Man. Dizer o contrario é ser um esnobe intelectual e um adolescente na arte de viver".


(Raymond Chandler sobre as acusações dos criticos literarios em relação do enredo noir não ser "literatura de caráter artistico" ou "literatura de fuga da realidade".)


Conhecer o enfumaçado, decadente e violento mundo de Raymond Chandler, pode ser a melhor forma de se ingressar no universo da literatura noir. Um universo em que a mentira, a corrupção e os crimes misteriosos são as principais características a serem encaradas e, mesmo que não se queira, aceitas.

Acredito que foi com Chandler que todo esse universo negro começou. Foi bem ali em suas páginas que tomaram forma as mulheres lindas, loiras, promiscuas e sórdidas. Ali também nasceram detetives espertos, como anti-heróis solitários, sem alma; alguns até durões, mas de coração mole!

Com a escrita de Raymond Chandler, as noites vazias, o jazz dos anos 40, as gotas de chuva brilhando no asfalto frio e os contos policiais, foram elevados ao patamar de ícones. Em seus contos, a oportunidade de viver dos detalhes, pequenas diferenças que desnudavam grandes crimes quase perfeitos.

A Dália Azul é o que pode ser melhor retratado como literatura policial. Sucesso no cinema, indicado para o Oscar como melhor roteiro. Fama e gloria para um ex-petroleiro que começou escrevendo continhos de mistérios baratos aos 33 anos. Mas, usando lentes de aumento e aprofundando-se na estória desse roteiro, descobre-se um Chandler nada feliz com as exigências hollywoodianas. Prazos curtos de entrega, atores canastrões, repulsa pelo sistema cinematográfico.

Razões mais que suficientes para deixar o antes cérebro genioso de Ray pifar e se render a total falta de inspiração. Isso faltando poucos dias para o fim das filmagens. Loucura no set, chefões do cinema à beira da loucura!Uma noite em claro fez Chandler pensar melhor e propor algo para que sua inspiração retornasse: bônus em dinheiro, um médico, duas limusines à sua disposição e uma enfermeira de plantão.

Mas por que diabos médicos e enfermeiras? Nada demais, a não ser o fato de Ray só conseguir escrever bem, totalmente encharcado de bebida. E se algo acontecesse, lá estaria os médicos, a enfermeira cuidadosa.

Foi assim que nasceu a Dália Azul.Toda essa pequena/grande introdução foi apenas para enfatizar minha surpresa ao ver uma adaptação para quadrinhos desse grande clássico. E que, claro, comprei no ato, sem pestanejar. Nunca iria me arrepender, mesmo estando duro. Deixaria de comer se fosse o caso para ter comigo esse exemplar.

Bati palmas ao italiano Filippo Scózzari, um ouro louco que realizou a empreitado de adaptar aos quadrinhos a obra prima de Chandler. Mas claro, ao modo dele: sarcástico, ácido e com seu conhecido humor cruel. Raymond Chandler se revira no caixão...Não de raiva...Mas sim para acender um cachimbo e tomar um Dry - Martine para comemorar a homenagem.
Do jeito que sempre fez.

domingo, março 20, 2005

Poema Noir: A mulher perfeita que nunca mente.

Jean Claude Claeys: "Auteur et modele"

"Quando a noite vem cheia de perigos / Eu deito em minha cama suja e velha/Bebendo o último gole de Rum / Tentando matar um amor impuro /Dentro de mim... /


Meu corpo não tatuado sua na escuridão quente / Tentando encontrar/ A mulher perfeita que nunca mente... /


As ruas cheias de estranhos / Um perigo a cada esquina / Jornais velhos voando / Como pombos famintos... / A noite toma meu ser / Emburrado e velhaco / Poucos trocados na carteira / Vivendo de um trabalho enfadado... /

Meu corpo não tatuado sua na escuridão quente / Tentando encontrar / A mulher perfeita que nunca mente... /


Num bar fétido e asqueroso / Encontrei um grande amor / Mas pobre dessa menina / Viciada em dor / Seus pulsos marcados com algemas e braceletes / Seus dentes tão alvos / E pingentes nos lábios indecentes/

Meu corpo não tatuado sua na escuridão quente / Tentando encontrar / A mulher perfeita que nunca mente /

Curioso é amar e ser considerado um demente /Estranho é não estar / Ao lado do que se deseja e sente / Mesmo sem nunca tocar/

Acendo um cigarro / Trago o seu veneno/
Exalo fumaça espessa /Cuspo num chão horrendo/
A noite sem luar está morta para os poetas/

E eu e meu corpo não tatuado suamos na escuridão quente / Tentando encontrar / A mulher perfeita que nunca mente..."

terça-feira, março 08, 2005

A rosa que murcha numa tarde quente


Em algum bairro pobre de Camaçari, uma senhora no alto dos seus 70 anos é roubada por um alcoólatra violento. Raiva, desespero, tristeza. Quem passou por um assalto e ainda sofre agressões, sabe o quão dificil é. E isso fica pior quando, o próprio marido é o autor da maldade.

Hoje, em especial, é um dia quente. Um dia em que nenhuma nuvem nos céus deixou o azul anil resplandecer vivo, durante as horas que o sol impera. E foi nessa tarde quente, que essa mesma senhora percorreu à pé, cerca de 3Km até a delegacia. Além de Deus (à quem clama pela realização dos seus poucos e humildes desejos), confia na justiça dos homens (um de seus motivos de ir realizar um boletim de ocorrência contra seu companheiro). Depois de relatar seus agravos e injúrias ao policial plantonista, ganha do mesmo um brinde em forma de comentário desrespeitoso:

- Tá vendo minha senhora, vai se meter com garotão, olha no que dá!!!

Um bom filho da puta tem vários nomes. E todos os sinônimos que existem para definir a alma sebosa que é um policial cívil sem respeito e sem compaixão pelo próximo, são minimas, diante da sua falta de ética, de apreço ao próximo. O que isso provocou na senhora, já desrespeitada por aquele que ela mesma escolheu como uma boa companhia espantar a solidão e dividir o leito?

Seus olhos velhos e murchos olharam para as outras pessoas do recinto, mortos de vergonha . Abaixou a cabeça, apertou o lenço branco nos cabelos e voltou para seu martírio pessoal: sua vida de casada. A última imagem em minha retina é de uma silhueta curvada pelos anos acumulados, parada ao portão da delegacia, olhando o mundo e aquela tarde quente inesquecível. Nas mãos enrugasas, a queixa. Na pele, o sol da tarde caustica, que à envolvia novamente.
 
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