terça-feira, agosto 16, 2005

A cidade lá embaixo


Olho a fumaça. Ela serpenteia pelo ar. Singela e vagarosa. Tudo está complemente sujo. Meu banheiro, minha sala, minha cama, minha cozinha, minha gata siamesa, meu corpo, minha alma... Meus olhos são fabricas de remelas secas. Meus pensamentos ainda estão na madrugada. Na garrafa de conhaque. Na noite sem sentido e extremamente dolorosa que a pouco passou. O sol explode lá fora, tentando invadir o apartamento com seus raios fortes e revigorantes. Adentrando o mofo do ambiente através das frestas da janela. Sol maldito...

A gata mia. Ela não quer afagos. Conheço quando sua garganta emite sons de fome. Por ela me levanto e faço qualquer coisa. Prefiro seu pêlo em meus lençóis a uma vadia sem coração e escrúpulos. Vadias que te dão bola. Vadias que te levam a um local escuro para um sexo rápido e casual. Que armam toda uma arapuca com caras fortes e mal encarados, que escondidos, saem dos becos para te socar até morrer. Ou quase. Não havia um vintém em meus bolsos. Para te roubar dinheiro, custear seus vícios, esses vermes parasitas de corpos humanos fazem qualquer coisa.

Não senti os socos. Graças ao meu bom deus, o conhaque quando consumido em quantidades exageradas tem uma peculiar propriedade anestésica. Tudo parecia mais uma massagem exótica. Nesse momento, o corpo moído, a cabeça explodindo. A estranha sensação de ter sorvido toda a bebida, de todos os bares, moquifos e inferninhos da cidade.

Odeio cigarros. Mas fumo mesmo sem querer. Como posso ser blasé sem fumar? Como posso ser soturno nas noites chuvosas sem fumar? Além do mais, gosto de imaginar que a fumaça de cigarro que se esvai da minha boca e narinas enquanto deitado na cama é uma espécie de espectro de mim mesmo. Gosto de pensar que sou uma assombração de mim mesmo. Uma assombração de nicotina, de mim mesmo.

Abro o jornal de ontem. O de hoje já foi jogado debaixo da porta. Mas leio o de ontem. Tenho certeza que sou o único vagabundo do universo com assinatura de jornal. Mas que diabos: "Victoria Beckham diz nunca ter lido um livro". Victoria quem? Ahh, aquela cretina das Spice Girls...Daqui a uns 20 anos ser analfabeto vai ser muito cool.
E entre um suspiro e outro, entre um café amargo e outro, entre um cigarro e outro, o dia passa. Abandonei a faculdade por completo. Falta-me dinheiro. Faltam-me amigos sinceros. Falta-me amor próprio. Talvez nunca consiga me formar em jornalismo. E mesmo me formando, que louco cheirador me contrataria? Odeio meu emprego. Eu não sou tão normal e simplório para merecer algo numa redação. Talvez nunca exerça essa "nobre" função. Talvez nunca dê esse orgulho a minha mãe.

Olho a rua lá embaixo: Tão perigosa e ao mesmo tempo tão tentadora. Olho a rua lá embaixo. Tantas sarjetas e pequenos holocaustos nas esquinas. Mas, talvez seja justamente lá embaixo, onde o vento cheira a cachorro-quente e legiões de baratas suadas nos esgotos, onde eu deva ir. É justamente lá embaixo onde eu posso ser algo. Com um bom estrume, uma planta cresce rápida e vigorosamente. Eu sou um galho seco, de uma arvore qualquer. E tudo de mais vil que vejo agora, é meu melhor adubo. É o estrume necessário para me fazer crescer...
Trlha: Donna Regina - Let´s go slow

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