terça-feira, agosto 09, 2005

Vermouths, vinhos e plástico-bolha.




São nove horas de uma noite que chove pouco. As nuvens do céu sempre vermelhas e densas. Por trás das lentes desses óculos, estão meus olhos observadores que quase nunca enxergam boas estórias. Há uma brisa sem graça por todos os lados. Estou em pé no meu quintal, mãos para trás.Divago.

Procuro idéias e não as encontro. Há uma um leve gosto de frustração no espírito. Ando me achando velho demais para realizar todos os meus projetos. O coração palpita por ação. Mas não há ação. Não há nada de anormal em minha vida, tão pouco nessa cidade. Saio para as ruas.

Trilha sonora artificial nostálgica e cibernética tocando em headphones apertados e demasiadamente altos dentro dos meus tímpanos. Essas novas bandas de "ambient music" são bastante interessantes. Experiências sonoras de trip hop são o novo jazz! Há uma volta aos anos 40. Aquela velha aura enfumaçada tomou de assalto a cultura pop. Temos musicas eletrônicas lentas e que remetem a dias chuvosos, solitários e enfumaçados. Temos diversas coleções de livros de "literatura negra/policial" pipocando aos montes em diversas editoras. E temos as deliciosas sombras projetadas nas telas do mundo todo: Sin City. Mas certamente, isso não vem ao caso.

A noite nada me diz. As ruas vazias e despidas de pudor sangram em sua volúpia eterna. Um casaco pode muito bem aquecer meu corpo, mas quem aquecerá meu maldito e frio coração? Nos bolsos da calça, uma carteira com pouco dinheiro e rabiscos de alguma caligrafia delicada. Restos do salário, restos de um possível conforto amoroso. Rápido, intenso e fútil conforto amoroso. Mulheres amargas que infestam meus sonhos. As piores são as mais lembradas!

Meu hálito fede. Masco uma goma que reinava há dias dentro de uma mochila encardida. Seres da rua passam por mim. Mendigos, trombadinhas, travecos adolescentes e seus clientes, bares cheios de gente esbanjadora de dinheiro.Todos bêbados, todos procurando uma felicidade no fundo do copo, na fumaça de um baseado, no pálido pó de cocaína, na ponta de uma agulha babando a mais doce heroína.

Eu sou como os viciados. E como eles procuro o êxtase da primeira sensação, do primeiro gole, do primeiro trago, da primeira fungada, do primeiro pico. Mas minha maldição, meu declínio, tem nome e sobrenome. Tem rosto, gosto, cheiro e muita maldade no coração. Minha ruína tem lábios suaves e adocicados. Tem corpo macio e depilado. A primeira sensação é sempre a melhor. E em vão procuro essas sensações. Dezenas de corpos, centenas de lábios, milhares de olhares vazios. Em vão procuro nos anjos solitários da noite que nunca se cansa de pecar.

Em nenhuma alma consigo me regozijar. Em nenhum amor consigo reencontrar tamanha satisfação dos desejos secretos que compartilhávamos. Perdi-me numa insensatez sem nome, numa fixação doentia pelo seu sexo, no seu riso tão encantador...




Mas antes que lagrimas se misturassem ao Vermouth que sorvia naquele momento, antes que meu dia terminasse perambulando bêbado pelas ruas e antes que a morte me levasse pelos braços, aquele ser estancou minhas angustias, extinguiu meus pesadelos, me fez regurgitar quilos de pensamentos ruins. Sentou-se ao meu lado, naquele balcão respingado de cervejas, vinhos, salpicos de salivas de gente mal-educado que xinga e fala alto. Sentou-se ao meu lado com sua coluna curva, cabelos negros até os ombros, olhos levemente rasgados, boca assustadoramente delineada, como um imã de beijos. Sua voz doce, seu sorriso límpido me curaram de todo o mal.

Impossível não conversar, impossível não ser gentil, pagar bebidas, fazer piadinhas cretinas...Olhar seus lábios enquanto falava do seu amor por sua irmã, de suas aventuras com carros envenenados, de sua musica preferida que era "I hate candy", do Lambchop. Solitária como eu, angustiada como eu, ela sorria como uma garotinha do interior, envergonhada, olhos soslaios, mas se entregava. Deixava-me ver seu ser aos poucos. A bebida ajudando a mostrar para mim aquela candura quase mentirosa de existir. Num mundo terrível como esse, ainda existiam anjos de verdade, e eu, a embebedava. Ali estava eu, enchendo um querubim de Vermouth e vinho!!!

Não transamos, não nos beijamos...Nem mesmo nos abraçamos. Olhávamos profundamente um para o outro. A riqueza do momento, a simplicidade do momento. O que seria de nossas vidas de agora em diante? Quando iríamos nos ver novamente? Perguntas de nada adiantariam. Sabíamos que depois de tudo aquilo, em algum lugar do tempo, em qualquer instante do passado, viveria para sempre aquele singelo e simples momento. Terminamos a noite sem pronunciar uma única palavra. Apenas estourando juntos um pequeno pedaço de um terapêutico plástico bolha. Nada mais...

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