segunda-feira, dezembro 12, 2005

"E se eu daqui a uns dias disser que estou bem, será mentira. Se eu disser que vi o pôr-do-sol e fiquei feliz, será mentira. Até se eu viajar pra Europa e disser que lá é tudo lindo e está sendo uma viagem maravilhosa, será mentira. E no natal, quando eu estiver tocando violão com minha família, quando eu sorrir, será mentira. Se eu passar na UNICAMP e for comemorar, será mentira. Infelicidade. Esse texto é mesmo feio. Foda-se o poder criativo da dor."


Eu não sou o único que enlouquece sozinho nessa cidade. Porque há um poeta morto observando a dor do mesmo angulo que observo...

quarta-feira, dezembro 07, 2005

Na difícil companhia de mim mesmo




A noite é dos errantes sem rumo. É para aqueles que se destroem e que acreditam que um amanhã jamais chegará. A noite pertence às almas condenadas à solidão do não amor verdadeiro. Pertence aos diversos desafortunados que rondam as zonas de baixo meretrício. A noite não é bela para quem definha. Seu brilho fraco, sua brevidade...Ela nunca foi uma criança, mas sim o rápido entorpecimento do clorofórmio. Ela nunca foi algo poético...Não a noite que eu conheço, não a noite dos viciados em todos os lixos sexuais e químicos. Não há glamour para os que ardem de dores de amor com seus copos de conhaque em punho...E eu tive o desprazer de conhecer a noite dos perdedores, dos que buscam o mal para aplacar seu próprio mal. Fui buscar estórias, mas não era necessário: eu era um resumo "virginal" de todos os costumes condenáveis! Eu era uma estória estúpida de amor burro e vacilante. Tão simples...Tão medonhamente simples, tão pungente, tão digno de pena...

Não era preciso correr pelas ruas, conhecer pessoas subumanas, que por qualquer motivo trágico se encontram nesse estado. Não, não precisava. Eu era a coisa mais patética desse universo. O presunçoso, certo que ia se dar bem. Em sua megalomania amorosa, tendo todas as espécies de sexo feminino ao seu bel prazer. Mas, a força que rege nossas ações, o grande roteirista dos filmes que são nossas vidas, mudou por completo a cena, e me pôs no meu devido lugar: na difícil companhia de mim mesmo. Na dolorosa convivência com um homem que beira os 30 e ainda não amadureceu por completo. Apenas o meu mais solitário eu, num isolamento estratégico devido a fatos financeiros que me prendiam a um apartamento, numa prisão sem grades. Conhecendo facetas minhas que até então desconhecia por completo: me tornei o carcereiro de mim mesmo.

Tenho gotículas salgadas nos olhos. Elas brotaram há pouco mais de uns 10 minutos. A percepção do vazio, de que finalmente você chegou aonde mais temia. Apenas você e você mesmo. Você e seu mau hálito. Você e seu cabelo despenteado. Apenas você amando você mesmo. Destino solitário ditado em cartas de baralho velhas. Tomando um café extraforte que reativa memórias que te matariam se pudessem. Então, aqui estou. Pensando na escassez das palavras doces dirigidas a mim. Na impossibilidade de encontrar algo que se importe realmente. Nas pequenas revoluções em minha cabeça que me puseram aqui.

Não se deve esperar por nada. Deve-se cultivar a solidão. E a venenosa solidão me persegue...Tomou-me como seu amante, e vai estar comigo até meus ossos virarem pó...A megera solidão que me tomou da vida normal e feliz, que me prende numa sexta-feira á noite dentro desse apartamento com vista para toda a cidade que suou num dia que foi tão quente. De onde vejo cerveja borbulhante e risos alcoólicos. Prédios que anunciam o triste natal com seus piscas-piscas modernos. A lua cheia e gorda de devassidão branca, com sua luz que derrama a luxuria de alva seda sobre as cabeças de damas noturnas. Pentecostes dos devassos!
Não há mais nada a fazer. Apenas tentar dormir ao som de Erik Satie e seu piano amargo. Adormecer lendo algo de Florbela Espanca ou Baudelaire. Mas antes, uma ultima respirada para encher bem forte os pulmões pela janela. Ter um ultimo pensamento na prisão do agora e observar a sombra de todas as más ações que perdurarão para todo o sempre...

segunda-feira, dezembro 05, 2005

O homem com uma dor




Ele tem um coração frágil, espetado por milhares de carrapichos secos. Sua alma está sempre de negro e sua mente fervilha com pensamentos confusos e angustiantes. Não consegue mais enxergar a magia do viver, só percebe os detalhes tristes nos lugares por onde anda. Mesmo o canto do mais raro pássaro do mundo, lhe soaria mórbido e sem esperança. Oh deus, eis o elegante homem com uma dor...

E o homem com uma dor (uma dorzinha infinita e agudamente dilacerante), tem muito mais desenvoltura ao se dopar de vinho...Mesmo bêbado, tem muito estilo. Veste-se sempre para a noite, pois sua vida é a eterna noite enfumaçada. Veste-se sempre devagar, sentindo intensamente cada peça de roupa que lhe cai ao corpo. Escolhe minuciosamente o que deve usar, sempre o melhor e mais apropriado. Veste-se como se fosse a ultima vez que usaria sua indumentária. Veste-se como se não fosse mais voltar ao seu sujo apartamento. Veste-se como se o amanhã nunca fosse chegar...Mas todos sabem...Ele veste-se para morrer de uma forma elegante, ele veste-se bem...Para a morte. E nunca há ninguém para opinar...

Um homem com uma dor é muito mais elegante porque, por onde anda, vê a vida com seus olhos singelos e sonolentos. Educado e desleixado-sexy. Sim, ele é puro, pois suas magoas e dores de consciência já queimaram todos os seus males que provocou. Ele é o santo da apatia e da amargura, purificado de todos os seus pecados por sua constante dor. Vê as luzes da cidade como pequenos vaga-lumes elétricos refletirem-se nas lentes de seus óculos. Quase sempre com as mãos nos bolsos, caminha pela multidão das ruas ou dos shoppings, olhando os rostos frios das pessoas. Procurando algo neles, algo que acalente seu confuso coração. Algo que responda as suas dúvidas sobre sua existência nesse mundo caótico e solitário. Algo que elimine de dentro dele, a sensação crônica de vazio.

Esse mesmo homem, não tem muitos amigos. Ou estão longe ou ocupados demais para suas lamentações adolescentes. Por isso, tem apenas ele mesmo como amigo e confidente. Namorada e esposa. Amigo de si mesmo. Menino e cão fiel que busca o galho lançado ao longe...Mas, e quando a dor é insuportável? Sai pelas ruas, pega qualquer ônibus, entra em qualquer loja de departamentos, sempre com seus fones de ouvidos, sua trilha sonora intima de Cool Jazz e Trip Hop. E quando a culpa senta-se bem na sua frente, olhando-o profundamente, sugando suas forças, jogando tudo o que fez de ruim para o mundo, transferindo tudo para seu intimo, ele aumenta o volume e usufrui do melhor do jazz mundano, da voz e do trumpete de Chet Baker a cerne noir de Miles Daves. Jazz music: analgésico para dores da alma.


Pela saudade aguda, amarga horrores. Por andar com a solidão ordinária, tem frieza nos lábios e olhos. Mas, e a beleza de sua vida, onde está? Ela esconde-se nos pequenos sofrimentos e desenganos. Na chuva fina que nunca passa despercebida, que lhe resfria o coração. No bondoso Sol que, apesar de toda a lama que respinga de sua alma, ainda o beija a face de forma cândida...Como uma mãe que mima o filho amado...Levemente...Ás cinco da manhã. O mundo é sua prisão...O mundo fechou suas portas para ele. Mas, como todos sabem, existem flores que brotam nos lixos e em beira de estradas poeirentas. E por isso, o homem com uma dor, no alto de sua elegância e olhar blasé, sabe que, no seu coração de esterco, um dia irá brotar a mais bela das rosas! A mais elegante das pétalas! Com a fragrância mais linda do universo...E nesse dia, o homem com uma dor ira descansar em paz e tranqüilidade, pois saberá que ao menos uma vez em toda sua maldita existência, serviu para que algo nascesse de forma pura e embelezasse essa vida feia, que insistimos em viver...





quinta-feira, outubro 27, 2005

Milágrimas





"Um homem com uma dor é muito mais elegante"
Paulo Leminsky









"Em caso de dor, ponha gelo
Mude a cor do cabelo
Mude como modelo
Vá ao cinema, dê um sorriso
Ainda que amarelo
Esqueça seu cotovelo

Em caso de tristeza, vire a mesa
Coma só a sobremesa
Coma somente cereja
Jogue pra cima, faça cena
Cante as rimas de um poema

Sendo só fissura, ou loucura
Quem sabe casando cura
Ninguém sabe o que procura
Faça uma novena, reze um terço
Caia fora do contexto, invente seu endereço

Mas apesar de banal
Chorar for inevitável
Sinta o gosto do sal
Gota a gota, uma a uma
Duas, três, dez, cem mil lágrimas, sinta o milagre
A cada milágrimas sai um milagre..."

Alice Ruis

quinta-feira, setembro 15, 2005

Li dezenas de resenhas e criticas de especialistas, inúmeras publicações e sites sobre Sin City. Antes, durante e depois do lançamento do filme aqui no Brasil. Nenhuma me surpreendeu tanto quanto o Carvalho Comix, um aficionado em quadrinhos que se diz "desenhistas por instinto e persistência". Uma surra de toalha molhada em muito pseudo-especialista de cinema e quadrinhos...Uma prova de como os blogs podem ser ferramentas jornalísticas produzidas pelo cidadão comum (Mais que diabos eu quis dizer com "cidadão comum"? Como se jornalistas também não fossem).

sexta-feira, setembro 02, 2005


Espero que tenham percebido que aos poucos, essa casa escura e úmida (que representa fatos e imaginações que se entrelaçam, e dão vida a essas estórias estranhas que aparecem por aqui), vai se acertando, ganhando maturidade, sendo um lugar legal de se olhar, ler algo e cair fora.

Como um bar preferido, um lounge sexy, levemente violento, com pessoas estranhas e solitárias, em mesas com abajures de luz fraca. Apareça sempre que puder, conheça outros malditos e estranhos como você. Faça amizade com aquela garçonete jovem, legal e que masca chiclete incessantemente. Minha intenção com isso tudo, juro por deus, pode rir se assim desejar, é arranjar um emprego.

Hilário, simplório, vago e porque não, inocente. Tudo o que você vê é apenas uma tentativa quase frustrada de ser algo realmente interessante no ambiente literário. Sei que vai ser difícil. Sei que é difícil renovar conceitos criados por mestres como Raymond Chandler ou Dashiell Hammett, mas eu tenho que tentar. É uma questão de paciência, persistência, espírito de luta, loucura, insanidade, literatura de baixo nível, ambientes inóspitos, etc.

quarta-feira, agosto 31, 2005




Violência sofisticada em quadrinhos luxuosos. Poesia visual sobre tiros, sangue, gângsteres, detetives e mortes. Essa seqüência diz tudo. Compre, só isso...

terça-feira, agosto 16, 2005

A cidade lá embaixo


Olho a fumaça. Ela serpenteia pelo ar. Singela e vagarosa. Tudo está complemente sujo. Meu banheiro, minha sala, minha cama, minha cozinha, minha gata siamesa, meu corpo, minha alma... Meus olhos são fabricas de remelas secas. Meus pensamentos ainda estão na madrugada. Na garrafa de conhaque. Na noite sem sentido e extremamente dolorosa que a pouco passou. O sol explode lá fora, tentando invadir o apartamento com seus raios fortes e revigorantes. Adentrando o mofo do ambiente através das frestas da janela. Sol maldito...

A gata mia. Ela não quer afagos. Conheço quando sua garganta emite sons de fome. Por ela me levanto e faço qualquer coisa. Prefiro seu pêlo em meus lençóis a uma vadia sem coração e escrúpulos. Vadias que te dão bola. Vadias que te levam a um local escuro para um sexo rápido e casual. Que armam toda uma arapuca com caras fortes e mal encarados, que escondidos, saem dos becos para te socar até morrer. Ou quase. Não havia um vintém em meus bolsos. Para te roubar dinheiro, custear seus vícios, esses vermes parasitas de corpos humanos fazem qualquer coisa.

Não senti os socos. Graças ao meu bom deus, o conhaque quando consumido em quantidades exageradas tem uma peculiar propriedade anestésica. Tudo parecia mais uma massagem exótica. Nesse momento, o corpo moído, a cabeça explodindo. A estranha sensação de ter sorvido toda a bebida, de todos os bares, moquifos e inferninhos da cidade.

Odeio cigarros. Mas fumo mesmo sem querer. Como posso ser blasé sem fumar? Como posso ser soturno nas noites chuvosas sem fumar? Além do mais, gosto de imaginar que a fumaça de cigarro que se esvai da minha boca e narinas enquanto deitado na cama é uma espécie de espectro de mim mesmo. Gosto de pensar que sou uma assombração de mim mesmo. Uma assombração de nicotina, de mim mesmo.

Abro o jornal de ontem. O de hoje já foi jogado debaixo da porta. Mas leio o de ontem. Tenho certeza que sou o único vagabundo do universo com assinatura de jornal. Mas que diabos: "Victoria Beckham diz nunca ter lido um livro". Victoria quem? Ahh, aquela cretina das Spice Girls...Daqui a uns 20 anos ser analfabeto vai ser muito cool.
E entre um suspiro e outro, entre um café amargo e outro, entre um cigarro e outro, o dia passa. Abandonei a faculdade por completo. Falta-me dinheiro. Faltam-me amigos sinceros. Falta-me amor próprio. Talvez nunca consiga me formar em jornalismo. E mesmo me formando, que louco cheirador me contrataria? Odeio meu emprego. Eu não sou tão normal e simplório para merecer algo numa redação. Talvez nunca exerça essa "nobre" função. Talvez nunca dê esse orgulho a minha mãe.

Olho a rua lá embaixo: Tão perigosa e ao mesmo tempo tão tentadora. Olho a rua lá embaixo. Tantas sarjetas e pequenos holocaustos nas esquinas. Mas, talvez seja justamente lá embaixo, onde o vento cheira a cachorro-quente e legiões de baratas suadas nos esgotos, onde eu deva ir. É justamente lá embaixo onde eu posso ser algo. Com um bom estrume, uma planta cresce rápida e vigorosamente. Eu sou um galho seco, de uma arvore qualquer. E tudo de mais vil que vejo agora, é meu melhor adubo. É o estrume necessário para me fazer crescer...
Trlha: Donna Regina - Let´s go slow

quarta-feira, agosto 10, 2005

terça-feira, agosto 09, 2005

Vermouths, vinhos e plástico-bolha.




São nove horas de uma noite que chove pouco. As nuvens do céu sempre vermelhas e densas. Por trás das lentes desses óculos, estão meus olhos observadores que quase nunca enxergam boas estórias. Há uma brisa sem graça por todos os lados. Estou em pé no meu quintal, mãos para trás.Divago.

Procuro idéias e não as encontro. Há uma um leve gosto de frustração no espírito. Ando me achando velho demais para realizar todos os meus projetos. O coração palpita por ação. Mas não há ação. Não há nada de anormal em minha vida, tão pouco nessa cidade. Saio para as ruas.

Trilha sonora artificial nostálgica e cibernética tocando em headphones apertados e demasiadamente altos dentro dos meus tímpanos. Essas novas bandas de "ambient music" são bastante interessantes. Experiências sonoras de trip hop são o novo jazz! Há uma volta aos anos 40. Aquela velha aura enfumaçada tomou de assalto a cultura pop. Temos musicas eletrônicas lentas e que remetem a dias chuvosos, solitários e enfumaçados. Temos diversas coleções de livros de "literatura negra/policial" pipocando aos montes em diversas editoras. E temos as deliciosas sombras projetadas nas telas do mundo todo: Sin City. Mas certamente, isso não vem ao caso.

A noite nada me diz. As ruas vazias e despidas de pudor sangram em sua volúpia eterna. Um casaco pode muito bem aquecer meu corpo, mas quem aquecerá meu maldito e frio coração? Nos bolsos da calça, uma carteira com pouco dinheiro e rabiscos de alguma caligrafia delicada. Restos do salário, restos de um possível conforto amoroso. Rápido, intenso e fútil conforto amoroso. Mulheres amargas que infestam meus sonhos. As piores são as mais lembradas!

Meu hálito fede. Masco uma goma que reinava há dias dentro de uma mochila encardida. Seres da rua passam por mim. Mendigos, trombadinhas, travecos adolescentes e seus clientes, bares cheios de gente esbanjadora de dinheiro.Todos bêbados, todos procurando uma felicidade no fundo do copo, na fumaça de um baseado, no pálido pó de cocaína, na ponta de uma agulha babando a mais doce heroína.

Eu sou como os viciados. E como eles procuro o êxtase da primeira sensação, do primeiro gole, do primeiro trago, da primeira fungada, do primeiro pico. Mas minha maldição, meu declínio, tem nome e sobrenome. Tem rosto, gosto, cheiro e muita maldade no coração. Minha ruína tem lábios suaves e adocicados. Tem corpo macio e depilado. A primeira sensação é sempre a melhor. E em vão procuro essas sensações. Dezenas de corpos, centenas de lábios, milhares de olhares vazios. Em vão procuro nos anjos solitários da noite que nunca se cansa de pecar.

Em nenhuma alma consigo me regozijar. Em nenhum amor consigo reencontrar tamanha satisfação dos desejos secretos que compartilhávamos. Perdi-me numa insensatez sem nome, numa fixação doentia pelo seu sexo, no seu riso tão encantador...




Mas antes que lagrimas se misturassem ao Vermouth que sorvia naquele momento, antes que meu dia terminasse perambulando bêbado pelas ruas e antes que a morte me levasse pelos braços, aquele ser estancou minhas angustias, extinguiu meus pesadelos, me fez regurgitar quilos de pensamentos ruins. Sentou-se ao meu lado, naquele balcão respingado de cervejas, vinhos, salpicos de salivas de gente mal-educado que xinga e fala alto. Sentou-se ao meu lado com sua coluna curva, cabelos negros até os ombros, olhos levemente rasgados, boca assustadoramente delineada, como um imã de beijos. Sua voz doce, seu sorriso límpido me curaram de todo o mal.

Impossível não conversar, impossível não ser gentil, pagar bebidas, fazer piadinhas cretinas...Olhar seus lábios enquanto falava do seu amor por sua irmã, de suas aventuras com carros envenenados, de sua musica preferida que era "I hate candy", do Lambchop. Solitária como eu, angustiada como eu, ela sorria como uma garotinha do interior, envergonhada, olhos soslaios, mas se entregava. Deixava-me ver seu ser aos poucos. A bebida ajudando a mostrar para mim aquela candura quase mentirosa de existir. Num mundo terrível como esse, ainda existiam anjos de verdade, e eu, a embebedava. Ali estava eu, enchendo um querubim de Vermouth e vinho!!!

Não transamos, não nos beijamos...Nem mesmo nos abraçamos. Olhávamos profundamente um para o outro. A riqueza do momento, a simplicidade do momento. O que seria de nossas vidas de agora em diante? Quando iríamos nos ver novamente? Perguntas de nada adiantariam. Sabíamos que depois de tudo aquilo, em algum lugar do tempo, em qualquer instante do passado, viveria para sempre aquele singelo e simples momento. Terminamos a noite sem pronunciar uma única palavra. Apenas estourando juntos um pequeno pedaço de um terapêutico plástico bolha. Nada mais...
 
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