segunda-feira, dezembro 12, 2005

"E se eu daqui a uns dias disser que estou bem, será mentira. Se eu disser que vi o pôr-do-sol e fiquei feliz, será mentira. Até se eu viajar pra Europa e disser que lá é tudo lindo e está sendo uma viagem maravilhosa, será mentira. E no natal, quando eu estiver tocando violão com minha família, quando eu sorrir, será mentira. Se eu passar na UNICAMP e for comemorar, será mentira. Infelicidade. Esse texto é mesmo feio. Foda-se o poder criativo da dor."


Eu não sou o único que enlouquece sozinho nessa cidade. Porque há um poeta morto observando a dor do mesmo angulo que observo...

quarta-feira, dezembro 07, 2005

Na difícil companhia de mim mesmo




A noite é dos errantes sem rumo. É para aqueles que se destroem e que acreditam que um amanhã jamais chegará. A noite pertence às almas condenadas à solidão do não amor verdadeiro. Pertence aos diversos desafortunados que rondam as zonas de baixo meretrício. A noite não é bela para quem definha. Seu brilho fraco, sua brevidade...Ela nunca foi uma criança, mas sim o rápido entorpecimento do clorofórmio. Ela nunca foi algo poético...Não a noite que eu conheço, não a noite dos viciados em todos os lixos sexuais e químicos. Não há glamour para os que ardem de dores de amor com seus copos de conhaque em punho...E eu tive o desprazer de conhecer a noite dos perdedores, dos que buscam o mal para aplacar seu próprio mal. Fui buscar estórias, mas não era necessário: eu era um resumo "virginal" de todos os costumes condenáveis! Eu era uma estória estúpida de amor burro e vacilante. Tão simples...Tão medonhamente simples, tão pungente, tão digno de pena...

Não era preciso correr pelas ruas, conhecer pessoas subumanas, que por qualquer motivo trágico se encontram nesse estado. Não, não precisava. Eu era a coisa mais patética desse universo. O presunçoso, certo que ia se dar bem. Em sua megalomania amorosa, tendo todas as espécies de sexo feminino ao seu bel prazer. Mas, a força que rege nossas ações, o grande roteirista dos filmes que são nossas vidas, mudou por completo a cena, e me pôs no meu devido lugar: na difícil companhia de mim mesmo. Na dolorosa convivência com um homem que beira os 30 e ainda não amadureceu por completo. Apenas o meu mais solitário eu, num isolamento estratégico devido a fatos financeiros que me prendiam a um apartamento, numa prisão sem grades. Conhecendo facetas minhas que até então desconhecia por completo: me tornei o carcereiro de mim mesmo.

Tenho gotículas salgadas nos olhos. Elas brotaram há pouco mais de uns 10 minutos. A percepção do vazio, de que finalmente você chegou aonde mais temia. Apenas você e você mesmo. Você e seu mau hálito. Você e seu cabelo despenteado. Apenas você amando você mesmo. Destino solitário ditado em cartas de baralho velhas. Tomando um café extraforte que reativa memórias que te matariam se pudessem. Então, aqui estou. Pensando na escassez das palavras doces dirigidas a mim. Na impossibilidade de encontrar algo que se importe realmente. Nas pequenas revoluções em minha cabeça que me puseram aqui.

Não se deve esperar por nada. Deve-se cultivar a solidão. E a venenosa solidão me persegue...Tomou-me como seu amante, e vai estar comigo até meus ossos virarem pó...A megera solidão que me tomou da vida normal e feliz, que me prende numa sexta-feira á noite dentro desse apartamento com vista para toda a cidade que suou num dia que foi tão quente. De onde vejo cerveja borbulhante e risos alcoólicos. Prédios que anunciam o triste natal com seus piscas-piscas modernos. A lua cheia e gorda de devassidão branca, com sua luz que derrama a luxuria de alva seda sobre as cabeças de damas noturnas. Pentecostes dos devassos!
Não há mais nada a fazer. Apenas tentar dormir ao som de Erik Satie e seu piano amargo. Adormecer lendo algo de Florbela Espanca ou Baudelaire. Mas antes, uma ultima respirada para encher bem forte os pulmões pela janela. Ter um ultimo pensamento na prisão do agora e observar a sombra de todas as más ações que perdurarão para todo o sempre...

segunda-feira, dezembro 05, 2005

O homem com uma dor




Ele tem um coração frágil, espetado por milhares de carrapichos secos. Sua alma está sempre de negro e sua mente fervilha com pensamentos confusos e angustiantes. Não consegue mais enxergar a magia do viver, só percebe os detalhes tristes nos lugares por onde anda. Mesmo o canto do mais raro pássaro do mundo, lhe soaria mórbido e sem esperança. Oh deus, eis o elegante homem com uma dor...

E o homem com uma dor (uma dorzinha infinita e agudamente dilacerante), tem muito mais desenvoltura ao se dopar de vinho...Mesmo bêbado, tem muito estilo. Veste-se sempre para a noite, pois sua vida é a eterna noite enfumaçada. Veste-se sempre devagar, sentindo intensamente cada peça de roupa que lhe cai ao corpo. Escolhe minuciosamente o que deve usar, sempre o melhor e mais apropriado. Veste-se como se fosse a ultima vez que usaria sua indumentária. Veste-se como se não fosse mais voltar ao seu sujo apartamento. Veste-se como se o amanhã nunca fosse chegar...Mas todos sabem...Ele veste-se para morrer de uma forma elegante, ele veste-se bem...Para a morte. E nunca há ninguém para opinar...

Um homem com uma dor é muito mais elegante porque, por onde anda, vê a vida com seus olhos singelos e sonolentos. Educado e desleixado-sexy. Sim, ele é puro, pois suas magoas e dores de consciência já queimaram todos os seus males que provocou. Ele é o santo da apatia e da amargura, purificado de todos os seus pecados por sua constante dor. Vê as luzes da cidade como pequenos vaga-lumes elétricos refletirem-se nas lentes de seus óculos. Quase sempre com as mãos nos bolsos, caminha pela multidão das ruas ou dos shoppings, olhando os rostos frios das pessoas. Procurando algo neles, algo que acalente seu confuso coração. Algo que responda as suas dúvidas sobre sua existência nesse mundo caótico e solitário. Algo que elimine de dentro dele, a sensação crônica de vazio.

Esse mesmo homem, não tem muitos amigos. Ou estão longe ou ocupados demais para suas lamentações adolescentes. Por isso, tem apenas ele mesmo como amigo e confidente. Namorada e esposa. Amigo de si mesmo. Menino e cão fiel que busca o galho lançado ao longe...Mas, e quando a dor é insuportável? Sai pelas ruas, pega qualquer ônibus, entra em qualquer loja de departamentos, sempre com seus fones de ouvidos, sua trilha sonora intima de Cool Jazz e Trip Hop. E quando a culpa senta-se bem na sua frente, olhando-o profundamente, sugando suas forças, jogando tudo o que fez de ruim para o mundo, transferindo tudo para seu intimo, ele aumenta o volume e usufrui do melhor do jazz mundano, da voz e do trumpete de Chet Baker a cerne noir de Miles Daves. Jazz music: analgésico para dores da alma.


Pela saudade aguda, amarga horrores. Por andar com a solidão ordinária, tem frieza nos lábios e olhos. Mas, e a beleza de sua vida, onde está? Ela esconde-se nos pequenos sofrimentos e desenganos. Na chuva fina que nunca passa despercebida, que lhe resfria o coração. No bondoso Sol que, apesar de toda a lama que respinga de sua alma, ainda o beija a face de forma cândida...Como uma mãe que mima o filho amado...Levemente...Ás cinco da manhã. O mundo é sua prisão...O mundo fechou suas portas para ele. Mas, como todos sabem, existem flores que brotam nos lixos e em beira de estradas poeirentas. E por isso, o homem com uma dor, no alto de sua elegância e olhar blasé, sabe que, no seu coração de esterco, um dia irá brotar a mais bela das rosas! A mais elegante das pétalas! Com a fragrância mais linda do universo...E nesse dia, o homem com uma dor ira descansar em paz e tranqüilidade, pois saberá que ao menos uma vez em toda sua maldita existência, serviu para que algo nascesse de forma pura e embelezasse essa vida feia, que insistimos em viver...





quinta-feira, outubro 27, 2005

Milágrimas





"Um homem com uma dor é muito mais elegante"
Paulo Leminsky









"Em caso de dor, ponha gelo
Mude a cor do cabelo
Mude como modelo
Vá ao cinema, dê um sorriso
Ainda que amarelo
Esqueça seu cotovelo

Em caso de tristeza, vire a mesa
Coma só a sobremesa
Coma somente cereja
Jogue pra cima, faça cena
Cante as rimas de um poema

Sendo só fissura, ou loucura
Quem sabe casando cura
Ninguém sabe o que procura
Faça uma novena, reze um terço
Caia fora do contexto, invente seu endereço

Mas apesar de banal
Chorar for inevitável
Sinta o gosto do sal
Gota a gota, uma a uma
Duas, três, dez, cem mil lágrimas, sinta o milagre
A cada milágrimas sai um milagre..."

Alice Ruis

quinta-feira, setembro 15, 2005

Li dezenas de resenhas e criticas de especialistas, inúmeras publicações e sites sobre Sin City. Antes, durante e depois do lançamento do filme aqui no Brasil. Nenhuma me surpreendeu tanto quanto o Carvalho Comix, um aficionado em quadrinhos que se diz "desenhistas por instinto e persistência". Uma surra de toalha molhada em muito pseudo-especialista de cinema e quadrinhos...Uma prova de como os blogs podem ser ferramentas jornalísticas produzidas pelo cidadão comum (Mais que diabos eu quis dizer com "cidadão comum"? Como se jornalistas também não fossem).

sexta-feira, setembro 02, 2005


Espero que tenham percebido que aos poucos, essa casa escura e úmida (que representa fatos e imaginações que se entrelaçam, e dão vida a essas estórias estranhas que aparecem por aqui), vai se acertando, ganhando maturidade, sendo um lugar legal de se olhar, ler algo e cair fora.

Como um bar preferido, um lounge sexy, levemente violento, com pessoas estranhas e solitárias, em mesas com abajures de luz fraca. Apareça sempre que puder, conheça outros malditos e estranhos como você. Faça amizade com aquela garçonete jovem, legal e que masca chiclete incessantemente. Minha intenção com isso tudo, juro por deus, pode rir se assim desejar, é arranjar um emprego.

Hilário, simplório, vago e porque não, inocente. Tudo o que você vê é apenas uma tentativa quase frustrada de ser algo realmente interessante no ambiente literário. Sei que vai ser difícil. Sei que é difícil renovar conceitos criados por mestres como Raymond Chandler ou Dashiell Hammett, mas eu tenho que tentar. É uma questão de paciência, persistência, espírito de luta, loucura, insanidade, literatura de baixo nível, ambientes inóspitos, etc.

quarta-feira, agosto 31, 2005




Violência sofisticada em quadrinhos luxuosos. Poesia visual sobre tiros, sangue, gângsteres, detetives e mortes. Essa seqüência diz tudo. Compre, só isso...

terça-feira, agosto 16, 2005

A cidade lá embaixo


Olho a fumaça. Ela serpenteia pelo ar. Singela e vagarosa. Tudo está complemente sujo. Meu banheiro, minha sala, minha cama, minha cozinha, minha gata siamesa, meu corpo, minha alma... Meus olhos são fabricas de remelas secas. Meus pensamentos ainda estão na madrugada. Na garrafa de conhaque. Na noite sem sentido e extremamente dolorosa que a pouco passou. O sol explode lá fora, tentando invadir o apartamento com seus raios fortes e revigorantes. Adentrando o mofo do ambiente através das frestas da janela. Sol maldito...

A gata mia. Ela não quer afagos. Conheço quando sua garganta emite sons de fome. Por ela me levanto e faço qualquer coisa. Prefiro seu pêlo em meus lençóis a uma vadia sem coração e escrúpulos. Vadias que te dão bola. Vadias que te levam a um local escuro para um sexo rápido e casual. Que armam toda uma arapuca com caras fortes e mal encarados, que escondidos, saem dos becos para te socar até morrer. Ou quase. Não havia um vintém em meus bolsos. Para te roubar dinheiro, custear seus vícios, esses vermes parasitas de corpos humanos fazem qualquer coisa.

Não senti os socos. Graças ao meu bom deus, o conhaque quando consumido em quantidades exageradas tem uma peculiar propriedade anestésica. Tudo parecia mais uma massagem exótica. Nesse momento, o corpo moído, a cabeça explodindo. A estranha sensação de ter sorvido toda a bebida, de todos os bares, moquifos e inferninhos da cidade.

Odeio cigarros. Mas fumo mesmo sem querer. Como posso ser blasé sem fumar? Como posso ser soturno nas noites chuvosas sem fumar? Além do mais, gosto de imaginar que a fumaça de cigarro que se esvai da minha boca e narinas enquanto deitado na cama é uma espécie de espectro de mim mesmo. Gosto de pensar que sou uma assombração de mim mesmo. Uma assombração de nicotina, de mim mesmo.

Abro o jornal de ontem. O de hoje já foi jogado debaixo da porta. Mas leio o de ontem. Tenho certeza que sou o único vagabundo do universo com assinatura de jornal. Mas que diabos: "Victoria Beckham diz nunca ter lido um livro". Victoria quem? Ahh, aquela cretina das Spice Girls...Daqui a uns 20 anos ser analfabeto vai ser muito cool.
E entre um suspiro e outro, entre um café amargo e outro, entre um cigarro e outro, o dia passa. Abandonei a faculdade por completo. Falta-me dinheiro. Faltam-me amigos sinceros. Falta-me amor próprio. Talvez nunca consiga me formar em jornalismo. E mesmo me formando, que louco cheirador me contrataria? Odeio meu emprego. Eu não sou tão normal e simplório para merecer algo numa redação. Talvez nunca exerça essa "nobre" função. Talvez nunca dê esse orgulho a minha mãe.

Olho a rua lá embaixo: Tão perigosa e ao mesmo tempo tão tentadora. Olho a rua lá embaixo. Tantas sarjetas e pequenos holocaustos nas esquinas. Mas, talvez seja justamente lá embaixo, onde o vento cheira a cachorro-quente e legiões de baratas suadas nos esgotos, onde eu deva ir. É justamente lá embaixo onde eu posso ser algo. Com um bom estrume, uma planta cresce rápida e vigorosamente. Eu sou um galho seco, de uma arvore qualquer. E tudo de mais vil que vejo agora, é meu melhor adubo. É o estrume necessário para me fazer crescer...
Trlha: Donna Regina - Let´s go slow

quarta-feira, agosto 10, 2005

terça-feira, agosto 09, 2005

Vermouths, vinhos e plástico-bolha.




São nove horas de uma noite que chove pouco. As nuvens do céu sempre vermelhas e densas. Por trás das lentes desses óculos, estão meus olhos observadores que quase nunca enxergam boas estórias. Há uma brisa sem graça por todos os lados. Estou em pé no meu quintal, mãos para trás.Divago.

Procuro idéias e não as encontro. Há uma um leve gosto de frustração no espírito. Ando me achando velho demais para realizar todos os meus projetos. O coração palpita por ação. Mas não há ação. Não há nada de anormal em minha vida, tão pouco nessa cidade. Saio para as ruas.

Trilha sonora artificial nostálgica e cibernética tocando em headphones apertados e demasiadamente altos dentro dos meus tímpanos. Essas novas bandas de "ambient music" são bastante interessantes. Experiências sonoras de trip hop são o novo jazz! Há uma volta aos anos 40. Aquela velha aura enfumaçada tomou de assalto a cultura pop. Temos musicas eletrônicas lentas e que remetem a dias chuvosos, solitários e enfumaçados. Temos diversas coleções de livros de "literatura negra/policial" pipocando aos montes em diversas editoras. E temos as deliciosas sombras projetadas nas telas do mundo todo: Sin City. Mas certamente, isso não vem ao caso.

A noite nada me diz. As ruas vazias e despidas de pudor sangram em sua volúpia eterna. Um casaco pode muito bem aquecer meu corpo, mas quem aquecerá meu maldito e frio coração? Nos bolsos da calça, uma carteira com pouco dinheiro e rabiscos de alguma caligrafia delicada. Restos do salário, restos de um possível conforto amoroso. Rápido, intenso e fútil conforto amoroso. Mulheres amargas que infestam meus sonhos. As piores são as mais lembradas!

Meu hálito fede. Masco uma goma que reinava há dias dentro de uma mochila encardida. Seres da rua passam por mim. Mendigos, trombadinhas, travecos adolescentes e seus clientes, bares cheios de gente esbanjadora de dinheiro.Todos bêbados, todos procurando uma felicidade no fundo do copo, na fumaça de um baseado, no pálido pó de cocaína, na ponta de uma agulha babando a mais doce heroína.

Eu sou como os viciados. E como eles procuro o êxtase da primeira sensação, do primeiro gole, do primeiro trago, da primeira fungada, do primeiro pico. Mas minha maldição, meu declínio, tem nome e sobrenome. Tem rosto, gosto, cheiro e muita maldade no coração. Minha ruína tem lábios suaves e adocicados. Tem corpo macio e depilado. A primeira sensação é sempre a melhor. E em vão procuro essas sensações. Dezenas de corpos, centenas de lábios, milhares de olhares vazios. Em vão procuro nos anjos solitários da noite que nunca se cansa de pecar.

Em nenhuma alma consigo me regozijar. Em nenhum amor consigo reencontrar tamanha satisfação dos desejos secretos que compartilhávamos. Perdi-me numa insensatez sem nome, numa fixação doentia pelo seu sexo, no seu riso tão encantador...




Mas antes que lagrimas se misturassem ao Vermouth que sorvia naquele momento, antes que meu dia terminasse perambulando bêbado pelas ruas e antes que a morte me levasse pelos braços, aquele ser estancou minhas angustias, extinguiu meus pesadelos, me fez regurgitar quilos de pensamentos ruins. Sentou-se ao meu lado, naquele balcão respingado de cervejas, vinhos, salpicos de salivas de gente mal-educado que xinga e fala alto. Sentou-se ao meu lado com sua coluna curva, cabelos negros até os ombros, olhos levemente rasgados, boca assustadoramente delineada, como um imã de beijos. Sua voz doce, seu sorriso límpido me curaram de todo o mal.

Impossível não conversar, impossível não ser gentil, pagar bebidas, fazer piadinhas cretinas...Olhar seus lábios enquanto falava do seu amor por sua irmã, de suas aventuras com carros envenenados, de sua musica preferida que era "I hate candy", do Lambchop. Solitária como eu, angustiada como eu, ela sorria como uma garotinha do interior, envergonhada, olhos soslaios, mas se entregava. Deixava-me ver seu ser aos poucos. A bebida ajudando a mostrar para mim aquela candura quase mentirosa de existir. Num mundo terrível como esse, ainda existiam anjos de verdade, e eu, a embebedava. Ali estava eu, enchendo um querubim de Vermouth e vinho!!!

Não transamos, não nos beijamos...Nem mesmo nos abraçamos. Olhávamos profundamente um para o outro. A riqueza do momento, a simplicidade do momento. O que seria de nossas vidas de agora em diante? Quando iríamos nos ver novamente? Perguntas de nada adiantariam. Sabíamos que depois de tudo aquilo, em algum lugar do tempo, em qualquer instante do passado, viveria para sempre aquele singelo e simples momento. Terminamos a noite sem pronunciar uma única palavra. Apenas estourando juntos um pequeno pedaço de um terapêutico plástico bolha. Nada mais...

domingo, abril 24, 2005

Notas em um guardanapo



Minha visão é sem cores, apenas o preto e branco, como uma foto de jornal amassado que embala um peixe cru. Sei que isso não te interessa, mas é apenas essa nota mental para não esquecer coisas que talvez me sirvam no futuro e, quando expostas, me fazem correr atrás do prejuízo. 

Então, um lembrete, e este serve para mim e você: seja uma víbora de olhar  venenoso por dentro, e um alvo, calmo e discreto cordeiro por fora.

segunda-feira, março 21, 2005

A simples arte de matar.




"Eu, particularmente, não tenho nada a declarar sobre a história de detetive enquanto fuga ideal. Simplesmente digo que toda e qualquer leitura por prazer é uma fuga, seja ela grego, matemática, astronomia, Benedetto Croce ou The Diary of the Forgotten Man. Dizer o contrario é ser um esnobe intelectual e um adolescente na arte de viver".


(Raymond Chandler sobre as acusações dos criticos literarios em relação do enredo noir não ser "literatura de caráter artistico" ou "literatura de fuga da realidade".)


Conhecer o enfumaçado, decadente e violento mundo de Raymond Chandler, pode ser a melhor forma de se ingressar no universo da literatura noir. Um universo em que a mentira, a corrupção e os crimes misteriosos são as principais características a serem encaradas e, mesmo que não se queira, aceitas.

Acredito que foi com Chandler que todo esse universo negro começou. Foi bem ali em suas páginas que tomaram forma as mulheres lindas, loiras, promiscuas e sórdidas. Ali também nasceram detetives espertos, como anti-heróis solitários, sem alma; alguns até durões, mas de coração mole!

Com a escrita de Raymond Chandler, as noites vazias, o jazz dos anos 40, as gotas de chuva brilhando no asfalto frio e os contos policiais, foram elevados ao patamar de ícones. Em seus contos, a oportunidade de viver dos detalhes, pequenas diferenças que desnudavam grandes crimes quase perfeitos.

A Dália Azul é o que pode ser melhor retratado como literatura policial. Sucesso no cinema, indicado para o Oscar como melhor roteiro. Fama e gloria para um ex-petroleiro que começou escrevendo continhos de mistérios baratos aos 33 anos. Mas, usando lentes de aumento e aprofundando-se na estória desse roteiro, descobre-se um Chandler nada feliz com as exigências hollywoodianas. Prazos curtos de entrega, atores canastrões, repulsa pelo sistema cinematográfico.

Razões mais que suficientes para deixar o antes cérebro genioso de Ray pifar e se render a total falta de inspiração. Isso faltando poucos dias para o fim das filmagens. Loucura no set, chefões do cinema à beira da loucura!Uma noite em claro fez Chandler pensar melhor e propor algo para que sua inspiração retornasse: bônus em dinheiro, um médico, duas limusines à sua disposição e uma enfermeira de plantão.

Mas por que diabos médicos e enfermeiras? Nada demais, a não ser o fato de Ray só conseguir escrever bem, totalmente encharcado de bebida. E se algo acontecesse, lá estaria os médicos, a enfermeira cuidadosa.

Foi assim que nasceu a Dália Azul.Toda essa pequena/grande introdução foi apenas para enfatizar minha surpresa ao ver uma adaptação para quadrinhos desse grande clássico. E que, claro, comprei no ato, sem pestanejar. Nunca iria me arrepender, mesmo estando duro. Deixaria de comer se fosse o caso para ter comigo esse exemplar.

Bati palmas ao italiano Filippo Scózzari, um ouro louco que realizou a empreitado de adaptar aos quadrinhos a obra prima de Chandler. Mas claro, ao modo dele: sarcástico, ácido e com seu conhecido humor cruel. Raymond Chandler se revira no caixão...Não de raiva...Mas sim para acender um cachimbo e tomar um Dry - Martine para comemorar a homenagem.
Do jeito que sempre fez.

domingo, março 20, 2005

Poema Noir: A mulher perfeita que nunca mente.

Jean Claude Claeys: "Auteur et modele"

"Quando a noite vem cheia de perigos / Eu deito em minha cama suja e velha/Bebendo o último gole de Rum / Tentando matar um amor impuro /Dentro de mim... /


Meu corpo não tatuado sua na escuridão quente / Tentando encontrar/ A mulher perfeita que nunca mente... /


As ruas cheias de estranhos / Um perigo a cada esquina / Jornais velhos voando / Como pombos famintos... / A noite toma meu ser / Emburrado e velhaco / Poucos trocados na carteira / Vivendo de um trabalho enfadado... /

Meu corpo não tatuado sua na escuridão quente / Tentando encontrar / A mulher perfeita que nunca mente... /


Num bar fétido e asqueroso / Encontrei um grande amor / Mas pobre dessa menina / Viciada em dor / Seus pulsos marcados com algemas e braceletes / Seus dentes tão alvos / E pingentes nos lábios indecentes/

Meu corpo não tatuado sua na escuridão quente / Tentando encontrar / A mulher perfeita que nunca mente /

Curioso é amar e ser considerado um demente /Estranho é não estar / Ao lado do que se deseja e sente / Mesmo sem nunca tocar/

Acendo um cigarro / Trago o seu veneno/
Exalo fumaça espessa /Cuspo num chão horrendo/
A noite sem luar está morta para os poetas/

E eu e meu corpo não tatuado suamos na escuridão quente / Tentando encontrar / A mulher perfeita que nunca mente..."

terça-feira, março 08, 2005

A rosa que murcha numa tarde quente


Em algum bairro pobre de Camaçari, uma senhora no alto dos seus 70 anos é roubada por um alcoólatra violento. Raiva, desespero, tristeza. Quem passou por um assalto e ainda sofre agressões, sabe o quão dificil é. E isso fica pior quando, o próprio marido é o autor da maldade.

Hoje, em especial, é um dia quente. Um dia em que nenhuma nuvem nos céus deixou o azul anil resplandecer vivo, durante as horas que o sol impera. E foi nessa tarde quente, que essa mesma senhora percorreu à pé, cerca de 3Km até a delegacia. Além de Deus (à quem clama pela realização dos seus poucos e humildes desejos), confia na justiça dos homens (um de seus motivos de ir realizar um boletim de ocorrência contra seu companheiro). Depois de relatar seus agravos e injúrias ao policial plantonista, ganha do mesmo um brinde em forma de comentário desrespeitoso:

- Tá vendo minha senhora, vai se meter com garotão, olha no que dá!!!

Um bom filho da puta tem vários nomes. E todos os sinônimos que existem para definir a alma sebosa que é um policial cívil sem respeito e sem compaixão pelo próximo, são minimas, diante da sua falta de ética, de apreço ao próximo. O que isso provocou na senhora, já desrespeitada por aquele que ela mesma escolheu como uma boa companhia espantar a solidão e dividir o leito?

Seus olhos velhos e murchos olharam para as outras pessoas do recinto, mortos de vergonha . Abaixou a cabeça, apertou o lenço branco nos cabelos e voltou para seu martírio pessoal: sua vida de casada. A última imagem em minha retina é de uma silhueta curvada pelos anos acumulados, parada ao portão da delegacia, olhando o mundo e aquela tarde quente inesquecível. Nas mãos enrugasas, a queixa. Na pele, o sol da tarde caustica, que à envolvia novamente.

terça-feira, fevereiro 08, 2005

Quando o amor é um acidente.




Uma música perfeita é preenchida não somente de sons, mas também de pequenos silêncios. É pelo seu vazio que um vaso é útil. O desejo nasce pelo "vázio" do não-ter. O vázio da ausência dá origem as saudades. O vázio da saudade, aumenta a paixão dos amantes.

A certeza de um bom filme está quando a fita se estende em nossas próprias vivências. Mas nunca há "slow-motion" e trilhas musicais lindas. Há só o vázio e a saudade tocando no fundo da alma.

segunda-feira, fevereiro 07, 2005

Quem sou e o que eu quero




Eu sou o repórter noir. E você quem é? Um leitor comum ou alguma espécie de crítico-stalker? Saiba que não me importo os motivos que te levaram até este lugar. Gostaria apenas que percebesse que aqui sou livre e tenho asas para voar por lugares que talvez esteja fora do seu universo. Antes que me rotule de "grande bosta" ou "bela porcaria", saiba que não é nada pretensioso de minha parte. É tudo um faz-de-conta. E dos piores mesmo.

Gosto de acreditar que sou um sonho, um desejo enrustido, um entusiasmo adolescente do que seria um jornalista ideal. Claro que o mundo jamais me pagaria por meu estilo tão "especial". O que acredito é que estou fora de tudo, principalmente da realidade. E é pelo devaneio literário que me fascino. É através dele que transformo-me no que não sou.

O fato é que odeio o atual modo jornalístico. Odeio todas as teorias de comunicação. Odeio o lead na ponta das língua bífidas e sem criatividade. Considero boa parte do que leio, algo vazio e enfadonho. Claro que com isso, posso ser alvo de toda espécie de cometários cretinos. Para estes, digo: meta-se em seus livros e eu, meto-me nos meus. Mergulhe em suas próprias fezes e deixe-me mergulhar nas minhas. Escreva conforme as formas do texto normal e aceitável. Acompanhe a multidão peregrino, se for o seu desejo.

Mas se quiser conhecer outras mentiras, aqui estou. Deixe para mim apenas a parte podre da maçã. Será um prazer comer seu lixo e regurgitá-lo como escrita. Porque almejo o não romântico, o não glamouroso. Minha pequena e pessoal vingança. Meu ódio de estimação. Minha loucura particular.

Noites frias ou quentes. Literatura. Bares fétidos. Filmes obscuros dos anos 40. Crônicas cruas, vindas da realidade "navalhenta". Jazz music. Trip-Hop. Mulheres das noites. Bêbados nas ruas. A cidade com seus enredos insanos. Os ônibus entupidos de pessoas-estórias. Submundo: real e digital.

Eu sou o Repórter Noir: triste ou alegre, cinza ou colorido, encharcado de bebidas e adjetivos. Na chuva e no sol, observando o desenrolar de uma novela sem fim. Observando e redigindo, a mentira e a loucura do viver.
 
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