sexta-feira, maio 03, 2013

Lídia, a má



Ela gostava desse lance de ser natural. Por isso, as axilas por fazer. No início, me incomodou, mas depois fui me acostumando. Devo isso, digamos, ao seu "apetite por mim", que me fazia esquecer desse enroscados detalhes. 

Livre como uma raposa selvagem, destroçou meu coração quando disse que não poderia mais me ver. Queria novas vítimas para seu ser de volúpia desregrada. Queria outras línguas para passear pelos recônditos do seu corpo, novas pernas para enroscar-se arduamente, com sofrigão. Ao menos foi sincera.

Ela era curiosamente forte apesar de não parecer. A primeira garota a me sufocar, cuspir no meu rosto e dizer que me amava.





sábado, setembro 12, 2009

Johnny Cash em quadrinhos.

cash

Uma merecida biografia em quadrinhos para o único e eterno "Man in Black", nosso imortal Johnny Cash. I See A Darkness será lançada nos EUA, dia 1º de outubro. 

Dizem que esta graphic novel será lançado no Brasil também em outubro, pela Editora 8INVERSO. O lançamento está previsto para 19 de outubro, em Porto Alegre, com a presença do autor, Reinhard Kleist. Maiores informações: >>> http://www.8inverso.com.br

quarta-feira, setembro 09, 2009

Cartoonoir: The Cat Piano




Animação em que os verdadeiros seres da noite tomam forma em uma ambientação soturna. Claro, está no meu ideal de perfeição!

sexta-feira, agosto 14, 2009

Não capricho desde o maternal.

Hoje, sou aquilo que mais odeio. Como um corpo cravado de balas de culpa. Um barco gigantesco com um capitão bêbado. A eterna falta de habilidade. Na cozinha, nos trabalhos manuais, na escrita, nos relacionamentos. A mesma falta de capricho que um dia, no distante maternal, uma professorinha de artes reconheceu. E tudo, absolutamente tudo... É culpa minha!

terça-feira, setembro 26, 2006

"Segunda-feira de calor na Bahia"






















Ao som de Johnny Cash, “Help Me”.


Olhe o calor novamente. É sempre nessa época que tudo acontece. É sempre no mesmo período que tudo muda. Os anos passam e passam, mas não é bem com as rugas que estão minhas preocupações. Não é o acumulo de dias ou quanto falta para minha morte. Nada dessas coisas que vivem a azucrinar o coração das pessoas, que se preocupam o mínimo que seja com seu futuro mortal. Nomes como “dor”, “desespero” ou qualquer adjetivo que se relacione ao fato de que, não é nada fácil dizer: eu estou ficando velho e eu não consigo acompanhar esse mundo!!!



É o calor novamente, que traz sempre as mesmas mudanças na mesma época. E se são as mesmas mudanças, então não há merda de mudança nenhuma acontecendo aqui. Então tomo um café, que faz o cérebro ficar igual a uma colméia de abelhas. Faz ficar sem pregar os olhos e ver esse mesmo Sol vir impiedosamente, te dizer que o dia vem vindo e você vai perder metade dele. Mas todo dia é exatamente igual ao anterior. Ao menos de cima de um prédio... Ao menos de cima de sua vida medíocre.

Rastreio em todos os lugares. Acontecimentos. Pessoas. Estou louco. Tela branca no peito.
"Segunda-feira de calor na Bahia". Ponha nos sites de buscas. Eu não estou mentindo. Escreva exatamente: "Segunda-feira de calor na Bahia". É a primeira noticia que leio. Não percebo como acordei tão tarde. O relógio, a cada segundo, me insulta de atrasado. E em parâmetros diversos, em comparações mil, estou mesmo. O coração se torna uma lama fétida. Torna-se escuro e sem direção exata, numa "Segunda-feira de sol na Bahia".

Onde estou, é um castelo minúsculo, com paredes mofadas e descascadas. E assim que o dia nasce, ninguém mais consegue dormir por aqui. Ninguém consegue mais sonhar em melhores maneiras de sumir. É um castelo minúsculo, mas com uma janela muito transparente e enorme, aonde o majestoso Sol chega forte, depois de viajar quilômetros de distância, para acordar quem estiver dormindo. É o mesmo Sol que faz essa "Segunda-feira de calor na Bahia", o titulo da primeira noticia que li hoje.


A gente se farta de estar vivo às vezes. Se farta de nada ser como realmente gostaríamos que fosse. Se morde de raiva pelas minúsculas dificuldades que nunca conseguimos solucionar. Mas eis que sempre tem um amanhecer. Eis que sempre o maldito Sol vai raiar quer seu corpo queira ou não. Ele vai estar ali na mesma hora e local todos os dias. E, mesmo que todos recusemos, lá vamos nós viver aquele dia regido por seu caminhar no espaço. Vagaroso e quente. Oh, mais esses dias, ele faz questão de provocar os poros e inundar nossas camisas de suor... E Salvador, terá Sol. E ele vai estar em todos os lugares, motivando as pessoas, dando um toque diferente nesse primeiro dia da semana. Mas seus raios não chegarão ao meu coração úmido. Ele não chegará nunca...


E a tarde vem devagar também. E chove. Mas não são gotas de chuva que caem agora. São lagrimas doces e frias vindas de anjos tristes. Assim me disseram isso ao menos, um dia quando criança. E talvez seja vergonhoso dizer que talvez, eu ainda acredite nisso. E o que me faz feliz é saber que o mesmo sol que te beija a face, queima também meu couro cabeludo. Que o mesmo luar que te acalma a alma, destrói meu cérebro com lembranças. Sei que nada tem haver uma coisa com a outra, mas é assim que relaciono tudo em minha consciência.


E no banheiro, água fresca cai sobre meu corpo. Ao menos aqui dentro, deste pequeno castelo mofado, é uma tarde tão agradável e morna!!!

sexta-feira, agosto 11, 2006








"E a chuva molhava o asfalto de leve, e eu via as luzes refletidas dos postes e carros. Para cada gota que caia gelidamente do céu, existia um motivo para se meter às mãos nos bolsos e sentir o frio que não existia. Um frio que emanava de algum lugar do corpo, de algum arrependimento, da lembrança de qualquer evento que ocorreu de forma tão insana e imprevista. Mas bom mesmo, era sentir com saudades, sim ainda com saudades, o gosto de seus pequenos lábios misturados aos meus..."


(Fragmento ainda não concluído de um conto)




. . .



Não queira caminhar sob uma chuva fina de um inverno mentiroso que faz mais calor do que frio, ao som de Jackie Gleason. Oh não, não queira. É morte certa para mentes não tão fortes ou não masoquistas como a minha. Jackie Gleason foi um ator em dezenas de filmes hollywoodianos dos 40 e 50, mas teve a feliz audácia de se meter no meio musical e conseguiu uma carreira tão extradionaria quanto à de ator. E se muitos aqui me acham deprimente ou "pra baixo", Jackie tinha uma orquestra com o fabuloso nome de "The Jackie Gleason Show (Melacholy Serenade)", só pra tocar musica de fosso, de quem se deu mal no amor, de saudades extremas, de bebedeiras solitárias, de derrotas e coisas afins.
Consegui baixar o clássico primeiro disco, Music for Lovers Only, de 1953, e meu deus, o que isso!!! É a coisa mais lindamente trágica que já ouvi!!! Não é uma tristeza feia, desesperada, mas sim um modo de ver a vida passar, tão sublime diante de nossos olhos, que se pode conseguir até rir diante de suas próprias desgraças, mas sem, é claro, deixar de sentir o salgado gosto das lagrimas escorrerem pela boca.
Outros álbuns sugestivos: Music, Martinis and Memories (1954), Music to Remember Her (1955), Lonesome Echo (1955), Night Winds (1956), Music for the Love Hours (1957), verdadeiras perolas da dor de cotovelo e do "remorso vão".

sábado, agosto 05, 2006

O que não encontro






O mundo passa diante dos meus olhos numa tela de vidro e plasma. Lá fora, o som de chuva forte no asfalto é a trilha sonora de uma noite que começa. Dentro de mim há medo e ressentimentos. Quero os meus pensamentos aquietados. E queria aquietar as angustias dos que me são próximos. Dos que buscam a paz em meu peito. Quero alivio para uma culpa que pesa em meus ombros. Quero cessar o choro e o ranger de dentes que escuto á quilômetros daqui.

Mas tão facilmente me decepciono. Tão facilmente me amedronto com as atitudes erradas! Queria dormir tranqüilo e confiar. Queria repousar na candura de um amor maternal. Queria a sinceridade (mesmo a dolorosa) deitada ao meu lado. Queria compartilhar meu possível gosto por arte, sem medo de ser sensível. Sem me importar com rótulos feministas ou machistas. Sem me importar com os rótulos da musica. Sem me importar com o que cada palavra pode significar. Sem me importar com o que cada antigo nome pode trazer de lembranças.

Porque sou agradecido tanto às pessoas que me fizeram rir, quantos as que me fizeram chorar. Entrelacei minha vida com muitos. E tudo foi bom. Tudo foi erro. Tudo foi acerto. Tudo foi vida fluindo no momento. Fluindo de forma feia e bonita. Como a vida deve ser. Como naturalmente ela se constitui. Sem medo de ser nomeado como coisas negativas. Viver é escrever sem borracha...

Não quero pisar macio no chão, como se houvesse um medo de acordar uma pessoa que pode acordar muito mal humorada com um mínimo de ruído. Viver pode ser muito mais tranqüilo e contemplador do que se pode imaginar. E acredito que no amor, deve existir compartilhamento. De carinhos, de idéias, de memórias boas, de memórias ruins, de alegrias, de tristezas, e principalmente: de desejos realizados ou que se queiram realizar. Pois no amor, o amor verdadeiro que se confunde a amizade com o prazer sexual, nada é feio. Nada é nojento. Nada é grotesco quando há ternura. Nada é sujo quando há ternura!!!!

E ternura, é tudo o que não encontro...

sexta-feira, julho 21, 2006

Verdadeiros Animais









Aisha, minha gata de estimação mezzo Siamês, mezzo Persa, fez uma cirurgia de emergência por esses dias. Seus filhotes morrerem ainda na fase de gestação, transformando-se de "futuros gatinhos mimosos" a "quatro pequenas múmias felpudas e de olhos azuis". Sem conseguir nem ao menos abortar, tive que leva-la ás pressas para uma clinica veterinária, para o procedimento cirúrgico que iria retirar os cadáveres de bichos de pelúcia.

Enquanto a levava, pensava nos meus antigos bichos, em como cada um deles fundiu sua existência rápida e serviçal com a minha. Em como, desde a fase de criança, aprendo a lidar com as perdas e com as frustrações. É por isso que dizem ser necessário uma criança cuidar de um animal. É uma simulação viva para aprender sobre amor ao próximo, responsabilidades e até mesmo o ódio.

Apreensivo, aguardei o termino da cirurgia na sala de espera. Havia quadros pintados a mão, onde os temas caninos reinavam. E havia também uma enorme figura do mapa mundi emoldurada, com a representação gráfica de cada pais e seus respectivos cães e gatos de origem. Lembrei-me de Kiko ao ver a Inglaterra com seu famoso cão de caçar lebres, o Beagle.

Kiko era um filhote de Beagle quando chegou na minha casa, lá pelos meus 13 anos. Animal valente, camarada e afetuoso. Nadávamos juntos num lago perto de minha casa e apesar do seu tamanho mediano, era forte o bastante para me levar nas costas nadando. Tinha uma imponência a ponto de se achar o dono da rua. O que lhe valeu duras surras de cachorros de porte gigante. Mas ele sobreviveu a inúmeras brigas e atropelamentos. Por 14 anos viveu em minha casa e dormindo em sua velha poltrona no terraço. E nessa mesma poltrona o encontrei morto, quando cheguei do trabalho numa tarde quente e ele não me respondeu aos assobios habituais. Meus 24 anos vieram abaixo, junto com lágrimas fortes...

Ajoelhado perto do seu corpo, me lembro que disse "Muito obrigado" e repeti isso uma centena de vezes bem próximo a sua orelha grande e fria. Estava profundamente triste, mas agradecido por ter me dado um bocado de alegrias. Principalmente na fase de adolescência, que foi muito dura e solitária. Meu irmão e eu o enterramos no quintal e até hoje ele está lá na casa de minha mãe. Tenho comigo um tufo de pêlos dele guardado num potinho preto de negativos de fotografias. Em algum lugar eu li sobre uma clinica nos EUA que fazem clones de animais de estimação por R$23, 000 a partir de um misero pelinho. Quem sabe eu não tenha dinheiro suficiente para isso um dia...


É justamente disso que trata "Verdadeiros Animais" da americana Hannah Tinti. Ela conta-nos 11 estórias onde homens, mulheres e animais são a mesma coisa. O mesmo universo de sentimentos, ressentimentos e desejos. É uma leitura daquelas com clima estranho e onírico. Um livro onde reside uma beleza sem precedentes de detalhes sórdidos e delicadamente cruéis. Delicadas como feridas abertas por todo o corpo, mergulhado numa banheira de sal grosso. E Hannah consegue como ninguém mostrar até mesmo a violência delicadamente. Consegue tecer palavras que cortam como facas de açougue e nos levam a situações desconcertantes. Tão desconcertantes quanto ver o bizarro abatimento de porcos, galinhas e bois.

Terminei a leitura na recepção, esperando Aisha acordar da anestesia. Fui vê-la assim que acabou tudo. Seu pêlo creme estava meio que molhado de éter. Fez-me lembrar Buster, o cão Labrador do senhor Mitchell, no conto "Lar, doce lar". Sua língua estava para fora. "Lulu", a girafa suicida e que tem visões, me vem a mente. "Aisha deve estar tendo sonhos bastante surreais nesse momento", penso comigo mesmo. Mas "o sonho se desmorona" e Aisha acorda. Ela me reconhece e mia fraco. Pago a conta e saio andando com o transportador de gatos na mão esquerda. Ela volta a dormir. E eu a sorrir...









Livro: VERDADEIROS ANIMAIS
Autor: Hannah Tinti
Tradução:Ryta Vinagre
ISBN:85-325-1825-7
Páginas:200Formato : 14x21
Preço : R$ 31,00

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quinta-feira, junho 08, 2006

Eu preciso de imersão para a escrita. Sempre. Deve haver musica e lugar adequado, pois sem isso, nada sai. Sei que é uma "frescura" a qual devo largar de mão com urgência. Mas, não minto ao dizer que gosto e consigo escrever fluentemente apenas quando me sinto péssimo. Ou seja: algo de interessante aos meus olhos, surge apenas quando algum mal me assola dentro das ações eletroquímicas do cérebro. Então descubro o quão difícil é, escrever sem vontade ou inspiração!!!...

Mas deve haver persistência em tudo. Deve haver algum "desentupidor de sentimentos", um desencadeador de palavras que formam as frases perfeitas. E sentimentos negativos darão vida a textos que não brotam. Os sentimentos negativos farão germinar letras nas pontas dos meus dedos. Adequadamente. Elegantemente. E a falta de assunto para uma crônica qualquer, talvez brilhe e se transforme em algo razoavelmente bom de pôr os olhos por alguns minutos.

quarta-feira, maio 31, 2006



Há sonhos que surgem ao sabor intoxicante e transparente de escapamento dos ônibus coletivos. E eles tecem momentos extraordinários, de extrema beleza, mas sempre de curtíssima duração.

O fato, é que todas as vezes que ela entra no ônibus, posso sentir seu perfume. Mesmo que eu esteja nas primeiras cadeiras dormindo, com a cabeça recostada no vidro da janela. Mesmo assim posso acordar ao sentir aquele cheiro, que se mistura ao odor do diesel desse transporte popular tão decrépito.

Todos os dias ela está com o mesmo uniforme, o mesmo batom vermelho nos lábios miúdos e o mesmo salto atado ao seu tornozelo. Com um rosto serio, como se odiasse o seu trabalho e acordar todos os dias tão cedo, ela retira o dinheiro da bolsa, entrega ao cobrador e ultrapassa a catraca. Feliz objeto esse, que diariamente toca seu formoso corpo e que eu o invejo profundamente.

Tão apática e sensual tão triste e sedutora! Senta-se na mesma cadeira, saca sua bolsa preta e pega um batom, passando pelos grossos lábios. Tem uma extrema técnica para aquilo. De uma só vez, contorna de forma perfeita sua boca. Mesmo com o ônibus em tão rápido movimento, mesmo sem espelho, chacoalhando pelas ruas estreitas da cidade suja. Teria ela consciência do modo fatal que faz isso? Teria ela consciência de sua voluptuosidade mortal?

Ela tem algo de superior naqueles olhos de pupilas pretas. Olhos que nunca percebem minha presença, nem de qualquer outro homem rude que a queima com olhares indecentes. Seu olhar é morto, mas de uma sensualidade fora do comum. Seria necrofilia ter desejos tão ardentes por aqueles pares de olhos tão venenosos?

Gosto de observar suas unhas, nem grandes e nem pequenas, esmalte vermelho que reluz com o brilho da manhã. Gosto quando senta na minha frente e abre a janela, deixando o vento poluído da cidade tomar conta de seus cabelos. Às vezes eu os toco com as pontas dos dedos, de leve, para ela não perceber e me achar um louco fetichista. Talvez no fundo eu até seja. Mas quem se importaria com essa "pequena indecência"?


Mas há esse problema com o pessoal dos transportes assolando a cidade por esses dias. E não vê-la, é para mim, o único real transtorno que essa greve me provoca. Mas aqui estou eu. Torcendo pelo sindicato dos rodoviários entrarem logo num acordo... Para que o sonho volte a sua regularidade habitual.


segunda-feira, dezembro 12, 2005

"E se eu daqui a uns dias disser que estou bem, será mentira. Se eu disser que vi o pôr-do-sol e fiquei feliz, será mentira. Até se eu viajar pra Europa e disser que lá é tudo lindo e está sendo uma viagem maravilhosa, será mentira. E no natal, quando eu estiver tocando violão com minha família, quando eu sorrir, será mentira. Se eu passar na UNICAMP e for comemorar, será mentira. Infelicidade. Esse texto é mesmo feio. Foda-se o poder criativo da dor."


Eu não sou o único que enlouquece sozinho nessa cidade. Porque há um poeta morto observando a dor do mesmo angulo que observo...

quarta-feira, dezembro 07, 2005

Na difícil companhia de mim mesmo




A noite é dos errantes sem rumo. É para aqueles que se destroem e que acreditam que um amanhã jamais chegará. A noite pertence às almas condenadas à solidão do não amor verdadeiro. Pertence aos diversos desafortunados que rondam as zonas de baixo meretrício. A noite não é bela para quem definha. Seu brilho fraco, sua brevidade...Ela nunca foi uma criança, mas sim o rápido entorpecimento do clorofórmio. Ela nunca foi algo poético...Não a noite que eu conheço, não a noite dos viciados em todos os lixos sexuais e químicos. Não há glamour para os que ardem de dores de amor com seus copos de conhaque em punho...E eu tive o desprazer de conhecer a noite dos perdedores, dos que buscam o mal para aplacar seu próprio mal. Fui buscar estórias, mas não era necessário: eu era um resumo "virginal" de todos os costumes condenáveis! Eu era uma estória estúpida de amor burro e vacilante. Tão simples...Tão medonhamente simples, tão pungente, tão digno de pena...

Não era preciso correr pelas ruas, conhecer pessoas subumanas, que por qualquer motivo trágico se encontram nesse estado. Não, não precisava. Eu era a coisa mais patética desse universo. O presunçoso, certo que ia se dar bem. Em sua megalomania amorosa, tendo todas as espécies de sexo feminino ao seu bel prazer. Mas, a força que rege nossas ações, o grande roteirista dos filmes que são nossas vidas, mudou por completo a cena, e me pôs no meu devido lugar: na difícil companhia de mim mesmo. Na dolorosa convivência com um homem que beira os 30 e ainda não amadureceu por completo. Apenas o meu mais solitário eu, num isolamento estratégico devido a fatos financeiros que me prendiam a um apartamento, numa prisão sem grades. Conhecendo facetas minhas que até então desconhecia por completo: me tornei o carcereiro de mim mesmo.

Tenho gotículas salgadas nos olhos. Elas brotaram há pouco mais de uns 10 minutos. A percepção do vazio, de que finalmente você chegou aonde mais temia. Apenas você e você mesmo. Você e seu mau hálito. Você e seu cabelo despenteado. Apenas você amando você mesmo. Destino solitário ditado em cartas de baralho velhas. Tomando um café extraforte que reativa memórias que te matariam se pudessem. Então, aqui estou. Pensando na escassez das palavras doces dirigidas a mim. Na impossibilidade de encontrar algo que se importe realmente. Nas pequenas revoluções em minha cabeça que me puseram aqui.

Não se deve esperar por nada. Deve-se cultivar a solidão. E a venenosa solidão me persegue...Tomou-me como seu amante, e vai estar comigo até meus ossos virarem pó...A megera solidão que me tomou da vida normal e feliz, que me prende numa sexta-feira á noite dentro desse apartamento com vista para toda a cidade que suou num dia que foi tão quente. De onde vejo cerveja borbulhante e risos alcoólicos. Prédios que anunciam o triste natal com seus piscas-piscas modernos. A lua cheia e gorda de devassidão branca, com sua luz que derrama a luxuria de alva seda sobre as cabeças de damas noturnas. Pentecostes dos devassos!
Não há mais nada a fazer. Apenas tentar dormir ao som de Erik Satie e seu piano amargo. Adormecer lendo algo de Florbela Espanca ou Baudelaire. Mas antes, uma ultima respirada para encher bem forte os pulmões pela janela. Ter um ultimo pensamento na prisão do agora e observar a sombra de todas as más ações que perdurarão para todo o sempre...

segunda-feira, dezembro 05, 2005

O homem com uma dor




Ele tem um coração frágil, espetado por milhares de carrapichos secos. Sua alma está sempre de negro e sua mente fervilha com pensamentos confusos e angustiantes. Não consegue mais enxergar a magia do viver, só percebe os detalhes tristes nos lugares por onde anda. Mesmo o canto do mais raro pássaro do mundo, lhe soaria mórbido e sem esperança. Oh deus, eis o elegante homem com uma dor...

E o homem com uma dor (uma dorzinha infinita e agudamente dilacerante), tem muito mais desenvoltura ao se dopar de vinho...Mesmo bêbado, tem muito estilo. Veste-se sempre para a noite, pois sua vida é a eterna noite enfumaçada. Veste-se sempre devagar, sentindo intensamente cada peça de roupa que lhe cai ao corpo. Escolhe minuciosamente o que deve usar, sempre o melhor e mais apropriado. Veste-se como se fosse a ultima vez que usaria sua indumentária. Veste-se como se não fosse mais voltar ao seu sujo apartamento. Veste-se como se o amanhã nunca fosse chegar...Mas todos sabem...Ele veste-se para morrer de uma forma elegante, ele veste-se bem...Para a morte. E nunca há ninguém para opinar...

Um homem com uma dor é muito mais elegante porque, por onde anda, vê a vida com seus olhos singelos e sonolentos. Educado e desleixado-sexy. Sim, ele é puro, pois suas magoas e dores de consciência já queimaram todos os seus males que provocou. Ele é o santo da apatia e da amargura, purificado de todos os seus pecados por sua constante dor. Vê as luzes da cidade como pequenos vaga-lumes elétricos refletirem-se nas lentes de seus óculos. Quase sempre com as mãos nos bolsos, caminha pela multidão das ruas ou dos shoppings, olhando os rostos frios das pessoas. Procurando algo neles, algo que acalente seu confuso coração. Algo que responda as suas dúvidas sobre sua existência nesse mundo caótico e solitário. Algo que elimine de dentro dele, a sensação crônica de vazio.

Esse mesmo homem, não tem muitos amigos. Ou estão longe ou ocupados demais para suas lamentações adolescentes. Por isso, tem apenas ele mesmo como amigo e confidente. Namorada e esposa. Amigo de si mesmo. Menino e cão fiel que busca o galho lançado ao longe...Mas, e quando a dor é insuportável? Sai pelas ruas, pega qualquer ônibus, entra em qualquer loja de departamentos, sempre com seus fones de ouvidos, sua trilha sonora intima de Cool Jazz e Trip Hop. E quando a culpa senta-se bem na sua frente, olhando-o profundamente, sugando suas forças, jogando tudo o que fez de ruim para o mundo, transferindo tudo para seu intimo, ele aumenta o volume e usufrui do melhor do jazz mundano, da voz e do trumpete de Chet Baker a cerne noir de Miles Daves. Jazz music: analgésico para dores da alma.


Pela saudade aguda, amarga horrores. Por andar com a solidão ordinária, tem frieza nos lábios e olhos. Mas, e a beleza de sua vida, onde está? Ela esconde-se nos pequenos sofrimentos e desenganos. Na chuva fina que nunca passa despercebida, que lhe resfria o coração. No bondoso Sol que, apesar de toda a lama que respinga de sua alma, ainda o beija a face de forma cândida...Como uma mãe que mima o filho amado...Levemente...Ás cinco da manhã. O mundo é sua prisão...O mundo fechou suas portas para ele. Mas, como todos sabem, existem flores que brotam nos lixos e em beira de estradas poeirentas. E por isso, o homem com uma dor, no alto de sua elegância e olhar blasé, sabe que, no seu coração de esterco, um dia irá brotar a mais bela das rosas! A mais elegante das pétalas! Com a fragrância mais linda do universo...E nesse dia, o homem com uma dor ira descansar em paz e tranqüilidade, pois saberá que ao menos uma vez em toda sua maldita existência, serviu para que algo nascesse de forma pura e embelezasse essa vida feia, que insistimos em viver...





quinta-feira, outubro 27, 2005

Milágrimas





"Um homem com uma dor é muito mais elegante"
Paulo Leminsky









"Em caso de dor, ponha gelo
Mude a cor do cabelo
Mude como modelo
Vá ao cinema, dê um sorriso
Ainda que amarelo
Esqueça seu cotovelo

Em caso de tristeza, vire a mesa
Coma só a sobremesa
Coma somente cereja
Jogue pra cima, faça cena
Cante as rimas de um poema

Sendo só fissura, ou loucura
Quem sabe casando cura
Ninguém sabe o que procura
Faça uma novena, reze um terço
Caia fora do contexto, invente seu endereço

Mas apesar de banal
Chorar for inevitável
Sinta o gosto do sal
Gota a gota, uma a uma
Duas, três, dez, cem mil lágrimas, sinta o milagre
A cada milágrimas sai um milagre..."

Alice Ruis

quinta-feira, setembro 15, 2005

Li dezenas de resenhas e criticas de especialistas, inúmeras publicações e sites sobre Sin City. Antes, durante e depois do lançamento do filme aqui no Brasil. Nenhuma me surpreendeu tanto quanto o Carvalho Comix, um aficionado em quadrinhos que se diz "desenhistas por instinto e persistência". Uma surra de toalha molhada em muito pseudo-especialista de cinema e quadrinhos...Uma prova de como os blogs podem ser ferramentas jornalísticas produzidas pelo cidadão comum (Mais que diabos eu quis dizer com "cidadão comum"? Como se jornalistas também não fossem).

sexta-feira, setembro 02, 2005


Espero que tenham percebido que aos poucos, essa casa escura e úmida (que representa fatos e imaginações que se entrelaçam, e dão vida a essas estórias estranhas que aparecem por aqui), vai se acertando, ganhando maturidade, sendo um lugar legal de se olhar, ler algo e cair fora.

Como um bar preferido, um lounge sexy, levemente violento, com pessoas estranhas e solitárias, em mesas com abajures de luz fraca. Apareça sempre que puder, conheça outros malditos e estranhos como você. Faça amizade com aquela garçonete jovem, legal e que masca chiclete incessantemente. Minha intenção com isso tudo, juro por deus, pode rir se assim desejar, é arranjar um emprego.

Hilário, simplório, vago e porque não, inocente. Tudo o que você vê é apenas uma tentativa quase frustrada de ser algo realmente interessante no ambiente literário. Sei que vai ser difícil. Sei que é difícil renovar conceitos criados por mestres como Raymond Chandler ou Dashiell Hammett, mas eu tenho que tentar. É uma questão de paciência, persistência, espírito de luta, loucura, insanidade, literatura de baixo nível, ambientes inóspitos, etc.

quarta-feira, agosto 31, 2005




Violência sofisticada em quadrinhos luxuosos. Poesia visual sobre tiros, sangue, gângsteres, detetives e mortes. Essa seqüência diz tudo. Compre, só isso...

terça-feira, agosto 16, 2005

A cidade lá embaixo


Olho a fumaça. Ela serpenteia pelo ar. Singela e vagarosa. Tudo está complemente sujo. Meu banheiro, minha sala, minha cama, minha cozinha, minha gata siamesa, meu corpo, minha alma... Meus olhos são fabricas de remelas secas. Meus pensamentos ainda estão na madrugada. Na garrafa de conhaque. Na noite sem sentido e extremamente dolorosa que a pouco passou. O sol explode lá fora, tentando invadir o apartamento com seus raios fortes e revigorantes. Adentrando o mofo do ambiente através das frestas da janela. Sol maldito...

A gata mia. Ela não quer afagos. Conheço quando sua garganta emite sons de fome. Por ela me levanto e faço qualquer coisa. Prefiro seu pêlo em meus lençóis a uma vadia sem coração e escrúpulos. Vadias que te dão bola. Vadias que te levam a um local escuro para um sexo rápido e casual. Que armam toda uma arapuca com caras fortes e mal encarados, que escondidos, saem dos becos para te socar até morrer. Ou quase. Não havia um vintém em meus bolsos. Para te roubar dinheiro, custear seus vícios, esses vermes parasitas de corpos humanos fazem qualquer coisa.

Não senti os socos. Graças ao meu bom deus, o conhaque quando consumido em quantidades exageradas tem uma peculiar propriedade anestésica. Tudo parecia mais uma massagem exótica. Nesse momento, o corpo moído, a cabeça explodindo. A estranha sensação de ter sorvido toda a bebida, de todos os bares, moquifos e inferninhos da cidade.

Odeio cigarros. Mas fumo mesmo sem querer. Como posso ser blasé sem fumar? Como posso ser soturno nas noites chuvosas sem fumar? Além do mais, gosto de imaginar que a fumaça de cigarro que se esvai da minha boca e narinas enquanto deitado na cama é uma espécie de espectro de mim mesmo. Gosto de pensar que sou uma assombração de mim mesmo. Uma assombração de nicotina, de mim mesmo.

Abro o jornal de ontem. O de hoje já foi jogado debaixo da porta. Mas leio o de ontem. Tenho certeza que sou o único vagabundo do universo com assinatura de jornal. Mas que diabos: "Victoria Beckham diz nunca ter lido um livro". Victoria quem? Ahh, aquela cretina das Spice Girls...Daqui a uns 20 anos ser analfabeto vai ser muito cool.
E entre um suspiro e outro, entre um café amargo e outro, entre um cigarro e outro, o dia passa. Abandonei a faculdade por completo. Falta-me dinheiro. Faltam-me amigos sinceros. Falta-me amor próprio. Talvez nunca consiga me formar em jornalismo. E mesmo me formando, que louco cheirador me contrataria? Odeio meu emprego. Eu não sou tão normal e simplório para merecer algo numa redação. Talvez nunca exerça essa "nobre" função. Talvez nunca dê esse orgulho a minha mãe.

Olho a rua lá embaixo: Tão perigosa e ao mesmo tempo tão tentadora. Olho a rua lá embaixo. Tantas sarjetas e pequenos holocaustos nas esquinas. Mas, talvez seja justamente lá embaixo, onde o vento cheira a cachorro-quente e legiões de baratas suadas nos esgotos, onde eu deva ir. É justamente lá embaixo onde eu posso ser algo. Com um bom estrume, uma planta cresce rápida e vigorosamente. Eu sou um galho seco, de uma arvore qualquer. E tudo de mais vil que vejo agora, é meu melhor adubo. É o estrume necessário para me fazer crescer...
Trlha: Donna Regina - Let´s go slow
 
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