Violência sofisticada em quadrinhos luxuosos. Poesia visual sobre tiros, sangue, gângsteres, detetives e mortes. Essa seqüência diz tudo. Compre, só isso...
quarta-feira, agosto 31, 2005
terça-feira, agosto 16, 2005
A cidade lá embaixo
Olho a fumaça. Ela serpenteia pelo ar. Singela e vagarosa. Tudo está complemente sujo. Meu banheiro, minha sala, minha cama, minha cozinha, minha gata siamesa, meu corpo, minha alma... Meus olhos são fabricas de remelas secas. Meus pensamentos ainda estão na madrugada. Na garrafa de conhaque. Na noite sem sentido e extremamente dolorosa que a pouco passou. O sol explode lá fora, tentando invadir o apartamento com seus raios fortes e revigorantes. Adentrando o mofo do ambiente através das frestas da janela. Sol maldito...
A gata mia. Ela não quer afagos. Conheço quando sua garganta emite sons de fome. Por ela me levanto e faço qualquer coisa. Prefiro seu pêlo em meus lençóis a uma vadia sem coração e escrúpulos. Vadias que te dão bola. Vadias que te levam a um local escuro para um sexo rápido e casual. Que armam toda uma arapuca com caras fortes e mal encarados, que escondidos, saem dos becos para te socar até morrer. Ou quase. Não havia um vintém em meus bolsos. Para te roubar dinheiro, custear seus vícios, esses vermes parasitas de corpos humanos fazem qualquer coisa.
Não senti os socos. Graças ao meu bom deus, o conhaque quando consumido em quantidades exageradas tem uma peculiar propriedade anestésica. Tudo parecia mais uma massagem exótica. Nesse momento, o corpo moído, a cabeça explodindo. A estranha sensação de ter sorvido toda a bebida, de todos os bares, moquifos e inferninhos da cidade.
Odeio cigarros. Mas fumo mesmo sem querer. Como posso ser blasé sem fumar? Como posso ser soturno nas noites chuvosas sem fumar? Além do mais, gosto de imaginar que a fumaça de cigarro que se esvai da minha boca e narinas enquanto deitado na cama é uma espécie de espectro de mim mesmo. Gosto de pensar que sou uma assombração de mim mesmo. Uma assombração de nicotina, de mim mesmo.
Abro o jornal de ontem. O de hoje já foi jogado debaixo da porta. Mas leio o de ontem. Tenho certeza que sou o único vagabundo do universo com assinatura de jornal. Mas que diabos: "Victoria Beckham diz nunca ter lido um livro". Victoria quem? Ahh, aquela cretina das Spice Girls...Daqui a uns 20 anos ser analfabeto vai ser muito cool.
E entre um suspiro e outro, entre um café amargo e outro, entre um cigarro e outro, o dia passa. Abandonei a faculdade por completo. Falta-me dinheiro. Faltam-me amigos sinceros. Falta-me amor próprio. Talvez nunca consiga me formar em jornalismo. E mesmo me formando, que louco cheirador me contrataria? Odeio meu emprego. Eu não sou tão normal e simplório para merecer algo numa redação. Talvez nunca exerça essa "nobre" função. Talvez nunca dê esse orgulho a minha mãe.
Olho a rua lá embaixo: Tão perigosa e ao mesmo tempo tão tentadora. Olho a rua lá embaixo. Tantas sarjetas e pequenos holocaustos nas esquinas. Mas, talvez seja justamente lá embaixo, onde o vento cheira a cachorro-quente e legiões de baratas suadas nos esgotos, onde eu deva ir. É justamente lá embaixo onde eu posso ser algo. Com um bom estrume, uma planta cresce rápida e vigorosamente. Eu sou um galho seco, de uma arvore qualquer. E tudo de mais vil que vejo agora, é meu melhor adubo. É o estrume necessário para me fazer crescer...
Trlha: Donna Regina - Let´s go slow
A gata mia. Ela não quer afagos. Conheço quando sua garganta emite sons de fome. Por ela me levanto e faço qualquer coisa. Prefiro seu pêlo em meus lençóis a uma vadia sem coração e escrúpulos. Vadias que te dão bola. Vadias que te levam a um local escuro para um sexo rápido e casual. Que armam toda uma arapuca com caras fortes e mal encarados, que escondidos, saem dos becos para te socar até morrer. Ou quase. Não havia um vintém em meus bolsos. Para te roubar dinheiro, custear seus vícios, esses vermes parasitas de corpos humanos fazem qualquer coisa.
Não senti os socos. Graças ao meu bom deus, o conhaque quando consumido em quantidades exageradas tem uma peculiar propriedade anestésica. Tudo parecia mais uma massagem exótica. Nesse momento, o corpo moído, a cabeça explodindo. A estranha sensação de ter sorvido toda a bebida, de todos os bares, moquifos e inferninhos da cidade.
Odeio cigarros. Mas fumo mesmo sem querer. Como posso ser blasé sem fumar? Como posso ser soturno nas noites chuvosas sem fumar? Além do mais, gosto de imaginar que a fumaça de cigarro que se esvai da minha boca e narinas enquanto deitado na cama é uma espécie de espectro de mim mesmo. Gosto de pensar que sou uma assombração de mim mesmo. Uma assombração de nicotina, de mim mesmo.
Abro o jornal de ontem. O de hoje já foi jogado debaixo da porta. Mas leio o de ontem. Tenho certeza que sou o único vagabundo do universo com assinatura de jornal. Mas que diabos: "Victoria Beckham diz nunca ter lido um livro". Victoria quem? Ahh, aquela cretina das Spice Girls...Daqui a uns 20 anos ser analfabeto vai ser muito cool.
E entre um suspiro e outro, entre um café amargo e outro, entre um cigarro e outro, o dia passa. Abandonei a faculdade por completo. Falta-me dinheiro. Faltam-me amigos sinceros. Falta-me amor próprio. Talvez nunca consiga me formar em jornalismo. E mesmo me formando, que louco cheirador me contrataria? Odeio meu emprego. Eu não sou tão normal e simplório para merecer algo numa redação. Talvez nunca exerça essa "nobre" função. Talvez nunca dê esse orgulho a minha mãe.
Olho a rua lá embaixo: Tão perigosa e ao mesmo tempo tão tentadora. Olho a rua lá embaixo. Tantas sarjetas e pequenos holocaustos nas esquinas. Mas, talvez seja justamente lá embaixo, onde o vento cheira a cachorro-quente e legiões de baratas suadas nos esgotos, onde eu deva ir. É justamente lá embaixo onde eu posso ser algo. Com um bom estrume, uma planta cresce rápida e vigorosamente. Eu sou um galho seco, de uma arvore qualquer. E tudo de mais vil que vejo agora, é meu melhor adubo. É o estrume necessário para me fazer crescer...
Trlha: Donna Regina - Let´s go slow
quarta-feira, agosto 10, 2005
O 4º Festival Anual de Filme Noir de San Francisco.
14 noites, 28 classicos noir. Se foi bom? Imagina...
terça-feira, agosto 09, 2005
Vermouths, vinhos e plástico-bolha.
São nove horas de uma noite que chove pouco. As nuvens do céu sempre vermelhas e densas. Por trás das lentes desses óculos, estão meus olhos observadores que quase nunca enxergam boas estórias. Há uma brisa sem graça por todos os lados. Estou em pé no meu quintal, mãos para trás.Divago.
Procuro idéias e não as encontro. Há uma um leve gosto de frustração no espírito. Ando me achando velho demais para realizar todos os meus projetos. O coração palpita por ação. Mas não há ação. Não há nada de anormal em minha vida, tão pouco nessa cidade. Saio para as ruas.
Trilha sonora artificial nostálgica e cibernética tocando em headphones apertados e demasiadamente altos dentro dos meus tímpanos. Essas novas bandas de "ambient music" são bastante interessantes. Experiências sonoras de trip hop são o novo jazz! Há uma volta aos anos 40. Aquela velha aura enfumaçada tomou de assalto a cultura pop. Temos musicas eletrônicas lentas e que remetem a dias chuvosos, solitários e enfumaçados. Temos diversas coleções de livros de "literatura negra/policial" pipocando aos montes em diversas editoras. E temos as deliciosas sombras projetadas nas telas do mundo todo: Sin City. Mas certamente, isso não vem ao caso.
A noite nada me diz. As ruas vazias e despidas de pudor sangram em sua volúpia eterna. Um casaco pode muito bem aquecer meu corpo, mas quem aquecerá meu maldito e frio coração? Nos bolsos da calça, uma carteira com pouco dinheiro e rabiscos de alguma caligrafia delicada. Restos do salário, restos de um possível conforto amoroso. Rápido, intenso e fútil conforto amoroso. Mulheres amargas que infestam meus sonhos. As piores são as mais lembradas!
Meu hálito fede. Masco uma goma que reinava há dias dentro de uma mochila encardida. Seres da rua passam por mim. Mendigos, trombadinhas, travecos adolescentes e seus clientes, bares cheios de gente esbanjadora de dinheiro.Todos bêbados, todos procurando uma felicidade no fundo do copo, na fumaça de um baseado, no pálido pó de cocaína, na ponta de uma agulha babando a mais doce heroína.
Eu sou como os viciados. E como eles procuro o êxtase da primeira sensação, do primeiro gole, do primeiro trago, da primeira fungada, do primeiro pico. Mas minha maldição, meu declínio, tem nome e sobrenome. Tem rosto, gosto, cheiro e muita maldade no coração. Minha ruína tem lábios suaves e adocicados. Tem corpo macio e depilado. A primeira sensação é sempre a melhor. E em vão procuro essas sensações. Dezenas de corpos, centenas de lábios, milhares de olhares vazios. Em vão procuro nos anjos solitários da noite que nunca se cansa de pecar.
Em nenhuma alma consigo me regozijar. Em nenhum amor consigo reencontrar tamanha satisfação dos desejos secretos que compartilhávamos. Perdi-me numa insensatez sem nome, numa fixação doentia pelo seu sexo, no seu riso tão encantador...
Mas antes que lagrimas se misturassem ao Vermouth que sorvia naquele momento, antes que meu dia terminasse perambulando bêbado pelas ruas e antes que a morte me levasse pelos braços, aquele ser estancou minhas angustias, extinguiu meus pesadelos, me fez regurgitar quilos de pensamentos ruins. Sentou-se ao meu lado, naquele balcão respingado de cervejas, vinhos, salpicos de salivas de gente mal-educado que xinga e fala alto. Sentou-se ao meu lado com sua coluna curva, cabelos negros até os ombros, olhos levemente rasgados, boca assustadoramente delineada, como um imã de beijos. Sua voz doce, seu sorriso límpido me curaram de todo o mal.
Impossível não conversar, impossível não ser gentil, pagar bebidas, fazer piadinhas cretinas...Olhar seus lábios enquanto falava do seu amor por sua irmã, de suas aventuras com carros envenenados, de sua musica preferida que era "I hate candy", do Lambchop. Solitária como eu, angustiada como eu, ela sorria como uma garotinha do interior, envergonhada, olhos soslaios, mas se entregava. Deixava-me ver seu ser aos poucos. A bebida ajudando a mostrar para mim aquela candura quase mentirosa de existir. Num mundo terrível como esse, ainda existiam anjos de verdade, e eu, a embebedava. Ali estava eu, enchendo um querubim de Vermouth e vinho!!!
Não transamos, não nos beijamos...Nem mesmo nos abraçamos. Olhávamos profundamente um para o outro. A riqueza do momento, a simplicidade do momento. O que seria de nossas vidas de agora em diante? Quando iríamos nos ver novamente? Perguntas de nada adiantariam. Sabíamos que depois de tudo aquilo, em algum lugar do tempo, em qualquer instante do passado, viveria para sempre aquele singelo e simples momento. Terminamos a noite sem pronunciar uma única palavra. Apenas estourando juntos um pequeno pedaço de um terapêutico plástico bolha. Nada mais...
Procuro idéias e não as encontro. Há uma um leve gosto de frustração no espírito. Ando me achando velho demais para realizar todos os meus projetos. O coração palpita por ação. Mas não há ação. Não há nada de anormal em minha vida, tão pouco nessa cidade. Saio para as ruas.
Trilha sonora artificial nostálgica e cibernética tocando em headphones apertados e demasiadamente altos dentro dos meus tímpanos. Essas novas bandas de "ambient music" são bastante interessantes. Experiências sonoras de trip hop são o novo jazz! Há uma volta aos anos 40. Aquela velha aura enfumaçada tomou de assalto a cultura pop. Temos musicas eletrônicas lentas e que remetem a dias chuvosos, solitários e enfumaçados. Temos diversas coleções de livros de "literatura negra/policial" pipocando aos montes em diversas editoras. E temos as deliciosas sombras projetadas nas telas do mundo todo: Sin City. Mas certamente, isso não vem ao caso.
A noite nada me diz. As ruas vazias e despidas de pudor sangram em sua volúpia eterna. Um casaco pode muito bem aquecer meu corpo, mas quem aquecerá meu maldito e frio coração? Nos bolsos da calça, uma carteira com pouco dinheiro e rabiscos de alguma caligrafia delicada. Restos do salário, restos de um possível conforto amoroso. Rápido, intenso e fútil conforto amoroso. Mulheres amargas que infestam meus sonhos. As piores são as mais lembradas!
Meu hálito fede. Masco uma goma que reinava há dias dentro de uma mochila encardida. Seres da rua passam por mim. Mendigos, trombadinhas, travecos adolescentes e seus clientes, bares cheios de gente esbanjadora de dinheiro.Todos bêbados, todos procurando uma felicidade no fundo do copo, na fumaça de um baseado, no pálido pó de cocaína, na ponta de uma agulha babando a mais doce heroína.
Eu sou como os viciados. E como eles procuro o êxtase da primeira sensação, do primeiro gole, do primeiro trago, da primeira fungada, do primeiro pico. Mas minha maldição, meu declínio, tem nome e sobrenome. Tem rosto, gosto, cheiro e muita maldade no coração. Minha ruína tem lábios suaves e adocicados. Tem corpo macio e depilado. A primeira sensação é sempre a melhor. E em vão procuro essas sensações. Dezenas de corpos, centenas de lábios, milhares de olhares vazios. Em vão procuro nos anjos solitários da noite que nunca se cansa de pecar.
Em nenhuma alma consigo me regozijar. Em nenhum amor consigo reencontrar tamanha satisfação dos desejos secretos que compartilhávamos. Perdi-me numa insensatez sem nome, numa fixação doentia pelo seu sexo, no seu riso tão encantador...
Mas antes que lagrimas se misturassem ao Vermouth que sorvia naquele momento, antes que meu dia terminasse perambulando bêbado pelas ruas e antes que a morte me levasse pelos braços, aquele ser estancou minhas angustias, extinguiu meus pesadelos, me fez regurgitar quilos de pensamentos ruins. Sentou-se ao meu lado, naquele balcão respingado de cervejas, vinhos, salpicos de salivas de gente mal-educado que xinga e fala alto. Sentou-se ao meu lado com sua coluna curva, cabelos negros até os ombros, olhos levemente rasgados, boca assustadoramente delineada, como um imã de beijos. Sua voz doce, seu sorriso límpido me curaram de todo o mal.
Impossível não conversar, impossível não ser gentil, pagar bebidas, fazer piadinhas cretinas...Olhar seus lábios enquanto falava do seu amor por sua irmã, de suas aventuras com carros envenenados, de sua musica preferida que era "I hate candy", do Lambchop. Solitária como eu, angustiada como eu, ela sorria como uma garotinha do interior, envergonhada, olhos soslaios, mas se entregava. Deixava-me ver seu ser aos poucos. A bebida ajudando a mostrar para mim aquela candura quase mentirosa de existir. Num mundo terrível como esse, ainda existiam anjos de verdade, e eu, a embebedava. Ali estava eu, enchendo um querubim de Vermouth e vinho!!!
Não transamos, não nos beijamos...Nem mesmo nos abraçamos. Olhávamos profundamente um para o outro. A riqueza do momento, a simplicidade do momento. O que seria de nossas vidas de agora em diante? Quando iríamos nos ver novamente? Perguntas de nada adiantariam. Sabíamos que depois de tudo aquilo, em algum lugar do tempo, em qualquer instante do passado, viveria para sempre aquele singelo e simples momento. Terminamos a noite sem pronunciar uma única palavra. Apenas estourando juntos um pequeno pedaço de um terapêutico plástico bolha. Nada mais...
domingo, abril 24, 2005
Notas em um guardanapo
Minha visão é sem cores, apenas o preto e branco, como uma foto de jornal amassado que embala um peixe cru. Sei que isso não te interessa, mas é apenas essa nota mental para não esquecer coisas que talvez me sirvam no futuro e, quando expostas, me fazem correr atrás do prejuízo.
Então, um lembrete, e este serve para mim e você: seja uma víbora de olhar venenoso por dentro, e um alvo, calmo e discreto cordeiro por fora.
Então, um lembrete, e este serve para mim e você: seja uma víbora de olhar venenoso por dentro, e um alvo, calmo e discreto cordeiro por fora.
segunda-feira, março 21, 2005
A simples arte de matar.

"Eu, particularmente, não tenho nada a declarar sobre a história de detetive enquanto fuga ideal. Simplesmente digo que toda e qualquer leitura por prazer é uma fuga, seja ela grego, matemática, astronomia, Benedetto Croce ou The Diary of the Forgotten Man. Dizer o contrario é ser um esnobe intelectual e um adolescente na arte de viver".
(Raymond Chandler sobre as acusações dos criticos literarios em relação do enredo noir não ser "literatura de caráter artistico" ou "literatura de fuga da realidade".)
Conhecer o enfumaçado, decadente e violento mundo de Raymond Chandler, pode ser a melhor forma de se ingressar no universo da literatura noir. Um universo em que a mentira, a corrupção e os crimes misteriosos são as principais características a serem encaradas e, mesmo que não se queira, aceitas.
Acredito que foi com Chandler que todo esse universo negro começou. Foi bem ali em suas páginas que tomaram forma as mulheres lindas, loiras, promiscuas e sórdidas. Ali também nasceram detetives espertos, como anti-heróis solitários, sem alma; alguns até durões, mas de coração mole!
Com a escrita de Raymond Chandler, as noites vazias, o jazz dos anos 40, as gotas de chuva brilhando no asfalto frio e os contos policiais, foram elevados ao patamar de ícones. Em seus contos, a oportunidade de viver dos detalhes, pequenas diferenças que desnudavam grandes crimes quase perfeitos.
A Dália Azul é o que pode ser melhor retratado como literatura policial. Sucesso no cinema, indicado para o Oscar como melhor roteiro. Fama e gloria para um ex-petroleiro que começou escrevendo continhos de mistérios baratos aos 33 anos. Mas, usando lentes de aumento e aprofundando-se na estória desse roteiro, descobre-se um Chandler nada feliz com as exigências hollywoodianas. Prazos curtos de entrega, atores canastrões, repulsa pelo sistema cinematográfico.
Razões mais que suficientes para deixar o antes cérebro genioso de Ray pifar e se render a total falta de inspiração. Isso faltando poucos dias para o fim das filmagens. Loucura no set, chefões do cinema à beira da loucura!Uma noite em claro fez Chandler pensar melhor e propor algo para que sua inspiração retornasse: bônus em dinheiro, um médico, duas limusines à sua disposição e uma enfermeira de plantão.
Mas por que diabos médicos e enfermeiras? Nada demais, a não ser o fato de Ray só conseguir escrever bem, totalmente encharcado de bebida. E se algo acontecesse, lá estaria os médicos, a enfermeira cuidadosa.
Foi assim que nasceu a Dália Azul.Toda essa pequena/grande introdução foi apenas para enfatizar minha surpresa ao ver uma adaptação para quadrinhos desse grande clássico. E que, claro, comprei no ato, sem pestanejar. Nunca iria me arrepender, mesmo estando duro. Deixaria de comer se fosse o caso para ter comigo esse exemplar.
Bati palmas ao italiano Filippo Scózzari, um ouro louco que realizou a empreitado de adaptar aos quadrinhos a obra prima de Chandler. Mas claro, ao modo dele: sarcástico, ácido e com seu conhecido humor cruel. Raymond Chandler se revira no caixão...Não de raiva...Mas sim para acender um cachimbo e tomar um Dry - Martine para comemorar a homenagem.
Do jeito que sempre fez.
domingo, março 20, 2005
Poema Noir: A mulher perfeita que nunca mente.

Jean Claude Claeys: "Auteur et modele"
"Quando a noite vem cheia de perigos / Eu deito em minha cama suja e velha/Bebendo o último gole de Rum / Tentando matar um amor impuro /Dentro de mim... /
Meu corpo não tatuado sua na escuridão quente / Tentando encontrar/ A mulher perfeita que nunca mente... /
As ruas cheias de estranhos / Um perigo a cada esquina / Jornais velhos voando / Como pombos famintos... / A noite toma meu ser / Emburrado e velhaco / Poucos trocados na carteira / Vivendo de um trabalho enfadado... /
Meu corpo não tatuado sua na escuridão quente / Tentando encontrar / A mulher perfeita que nunca mente... /
Num bar fétido e asqueroso / Encontrei um grande amor / Mas pobre dessa menina / Viciada em dor / Seus pulsos marcados com algemas e braceletes / Seus dentes tão alvos / E pingentes nos lábios indecentes/
Meu corpo não tatuado sua na escuridão quente / Tentando encontrar / A mulher perfeita que nunca mente /
Curioso é amar e ser considerado um demente /Estranho é não estar / Ao lado do que se deseja e sente / Mesmo sem nunca tocar/
Acendo um cigarro / Trago o seu veneno/
Exalo fumaça espessa /Cuspo num chão horrendo/
A noite sem luar está morta para os poetas/
E eu e meu corpo não tatuado suamos na escuridão quente / Tentando encontrar / A mulher perfeita que nunca mente..."
Meu corpo não tatuado sua na escuridão quente / Tentando encontrar/ A mulher perfeita que nunca mente... /
As ruas cheias de estranhos / Um perigo a cada esquina / Jornais velhos voando / Como pombos famintos... / A noite toma meu ser / Emburrado e velhaco / Poucos trocados na carteira / Vivendo de um trabalho enfadado... /
Meu corpo não tatuado sua na escuridão quente / Tentando encontrar / A mulher perfeita que nunca mente... /
Num bar fétido e asqueroso / Encontrei um grande amor / Mas pobre dessa menina / Viciada em dor / Seus pulsos marcados com algemas e braceletes / Seus dentes tão alvos / E pingentes nos lábios indecentes/
Meu corpo não tatuado sua na escuridão quente / Tentando encontrar / A mulher perfeita que nunca mente /
Curioso é amar e ser considerado um demente /Estranho é não estar / Ao lado do que se deseja e sente / Mesmo sem nunca tocar/
Acendo um cigarro / Trago o seu veneno/
Exalo fumaça espessa /Cuspo num chão horrendo/
A noite sem luar está morta para os poetas/
E eu e meu corpo não tatuado suamos na escuridão quente / Tentando encontrar / A mulher perfeita que nunca mente..."
terça-feira, março 08, 2005
A rosa que murcha numa tarde quente

Em algum bairro pobre de Camaçari, uma senhora no alto dos seus 70 anos é roubada por um alcoólatra violento. Raiva, desespero, tristeza. Quem passou por um assalto e ainda sofre agressões, sabe o quão dificil é. E isso fica pior quando, o próprio marido é o autor da maldade.
Hoje, em especial, é um dia quente. Um dia em que nenhuma nuvem nos céus deixou o azul anil resplandecer vivo, durante as horas que o sol impera. E foi nessa tarde quente, que essa mesma senhora percorreu à pé, cerca de 3Km até a delegacia. Além de Deus (à quem clama pela realização dos seus poucos e humildes desejos), confia na justiça dos homens (um de seus motivos de ir realizar um boletim de ocorrência contra seu companheiro). Depois de relatar seus agravos e injúrias ao policial plantonista, ganha do mesmo um brinde em forma de comentário desrespeitoso:
- Tá vendo minha senhora, vai se meter com garotão, olha no que dá!!!
Um bom filho da puta tem vários nomes. E todos os sinônimos que existem para definir a alma sebosa que é um policial cívil sem respeito e sem compaixão pelo próximo, são minimas, diante da sua falta de ética, de apreço ao próximo. O que isso provocou na senhora, já desrespeitada por aquele que ela mesma escolheu como uma boa companhia espantar a solidão e dividir o leito?
Seus olhos velhos e murchos olharam para as outras pessoas do recinto, mortos de vergonha . Abaixou a cabeça, apertou o lenço branco nos cabelos e voltou para seu martírio pessoal: sua vida de casada. A última imagem em minha retina é de uma silhueta curvada pelos anos acumulados, parada ao portão da delegacia, olhando o mundo e aquela tarde quente inesquecível. Nas mãos enrugasas, a queixa. Na pele, o sol da tarde caustica, que à envolvia novamente.
terça-feira, fevereiro 08, 2005
Quando o amor é um acidente.
Uma música perfeita é preenchida não somente de sons, mas também de pequenos silêncios. É pelo seu vazio que um vaso é útil. O desejo nasce pelo "vázio" do não-ter. O vázio da ausência dá origem as saudades. O vázio da saudade, aumenta a paixão dos amantes.
A certeza de um bom filme está quando a fita se estende em nossas próprias vivências. Mas nunca há "slow-motion" e trilhas musicais lindas. Há só o vázio e a saudade tocando no fundo da alma.
segunda-feira, fevereiro 07, 2005
Quem sou e o que eu quero
Eu sou o repórter noir. E você quem é? Um leitor comum ou alguma espécie de crítico-stalker? Saiba que não me importo os motivos que te levaram até este lugar. Gostaria apenas que percebesse que aqui sou livre e tenho asas para voar por lugares que talvez esteja fora do seu universo. Antes que me rotule de "grande bosta" ou "bela porcaria", saiba que não é nada pretensioso de minha parte. É tudo um faz-de-conta. E dos piores mesmo.
Gosto de acreditar que sou um sonho, um desejo enrustido, um entusiasmo adolescente do que seria um jornalista ideal. Claro que o mundo jamais me pagaria por meu estilo tão "especial". O que acredito é que estou fora de tudo, principalmente da realidade. E é pelo devaneio literário que me fascino. É através dele que transformo-me no que não sou.
O fato é que odeio o atual modo jornalístico. Odeio todas as teorias de comunicação. Odeio o lead na ponta das língua bífidas e sem criatividade. Considero boa parte do que leio, algo vazio e enfadonho. Claro que com isso, posso ser alvo de toda espécie de cometários cretinos. Para estes, digo: meta-se em seus livros e eu, meto-me nos meus. Mergulhe em suas próprias fezes e deixe-me mergulhar nas minhas. Escreva conforme as formas do texto normal e aceitável. Acompanhe a multidão peregrino, se for o seu desejo.
Mas se quiser conhecer outras mentiras, aqui estou. Deixe para mim apenas a parte podre da maçã. Será um prazer comer seu lixo e regurgitá-lo como escrita. Porque almejo o não romântico, o não glamouroso. Minha pequena e pessoal vingança. Meu ódio de estimação. Minha loucura particular.
Noites frias ou quentes. Literatura. Bares fétidos. Filmes obscuros dos anos 40. Crônicas cruas, vindas da realidade "navalhenta". Jazz music. Trip-Hop. Mulheres das noites. Bêbados nas ruas. A cidade com seus enredos insanos. Os ônibus entupidos de pessoas-estórias. Submundo: real e digital.
Eu sou o Repórter Noir: triste ou alegre, cinza ou colorido, encharcado de bebidas e adjetivos. Na chuva e no sol, observando o desenrolar de uma novela sem fim. Observando e redigindo, a mentira e a loucura do viver.
Assinar:
Postagens (Atom)

